Comissão federal aponta que JK foi assassinado pela ditadura militar quase 50 anos após morte
Um relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima de perseguição política e teria sido assassinado pela ditadura militar brasileira em 1976. O documento revisa oficialmente a versão histórica que tratava a morte de JK como consequência de um acidente automobilístico na Via Dutra.
O parecer foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na comissão, e reúne mais de 5 mil páginas entre documentos, perícias e anexos. A expectativa é que o texto seja analisado e votado pelos integrantes da CEMDP nas próximas semanas.
Juscelino Kubitschek morreu em 22 de agosto de 1976, quando o Opala em que viajava colidiu na Via Dutra, após perder o controle e atravessar o canteiro central da rodovia. O motorista e amigo do ex-presidente, Geraldo Ribeiro, também morreu no local. Durante décadas, a versão oficial sustentou que o acidente teria sido provocado após uma suposta colisão lateral com um ônibus da Viação Cometa.
Essa conclusão foi mantida por investigações conduzidas ainda durante o regime militar e posteriormente reforçada pela Comissão Nacional da Verdade, em 2014. O novo relatório, porém, afirma que há inconsistências graves nessa versão e sustenta que a morte pode ter sido resultado de uma ação deliberada da repressão política.
A principal base utilizada pela comissão foi um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019. Na investigação, o MPF concluiu que não houve colisão entre o ônibus da Cometa e o carro de JK antes da perda de controle do veículo. Apesar disso, o órgão afirmou não ser possível confirmar nem descartar totalmente a hipótese de atentado por falta de provas materiais definitivas.
O relatório também cita análises do engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes consultado pelo MPF. Segundo a perícia técnica apresentada, os laudos anteriores que embasaram a tese do acidente apresentavam falhas e inconsistências técnicas.
Outro ponto destacado no documento é o contexto político vivido por JK durante os anos finais da ditadura militar. Cassado em 1964 e com os direitos políticos suspensos, o ex-presidente era uma das principais lideranças de oposição ao regime e integrava a Frente Ampla, movimento criado ao lado de João Goulart e Carlos Lacerda.
A comissão também menciona documentos relacionados à Operação Condor, articulação repressiva entre ditaduras sul-americanas durante a Guerra Fria. Entre os registros citados está uma comunicação do então chefe da polícia secreta chilena, Manuel Contreras, em que JK aparece mencionado como figura considerada ameaça política pelos regimes militares da região.
Caso o parecer seja aprovado pela maioria dos integrantes da comissão, a certidão de óbito de Juscelino Kubitschek poderá ser alterada oficialmente para reconhecer que sua morte ocorreu em decorrência de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro. O mesmo reconhecimento poderá ser aplicado ao motorista Geraldo Ribeiro.
Criada em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos é responsável por reconhecer mortes e desaparecimentos ligados à repressão política entre 1961 e 1988.
Fonte: Metrópoles.
Foto: Reprodução.

