Eleições 2026: especialistas alertam para uso de IA, fake news e disparos no WhatsApp
O primeiro turno das eleições gerais de 2026 será realizado no dia 4 de outubro. De acordo com o calendário eleitoral divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as convenções partidárias — período em que realmente é decidido quem vai concorrer aos cargos — devem acontecer entre os dias 20 de julho e 5 de agosto. Apesar disso, a mobilização para que os nomes sejam apresentados já está acontecendo desde a janela partidária, segundo especialistas ouvidos pelo Jornal Opção.
Mas você consegue identificar o que pode ou o que não se pode fazer durante o período de pré-campanha e até mesmo ao longo da campanha eleitoral? Segundo o advogado eleitoralista, José Caio Vaz Ferreira, a regra é ampla e tende até a ser sucinta: o que não pode ser feito durante a campanha eleitoral não se pode fazer na pré-campanha.
E, por isso, ele exemplifica até mesmo sobre a linguagem utilizada pelo candidato, que, dependendo da forma como é abordada, pode soar como pedido explícito de voto à população. “O pedido explícito de voto não é só aquele que diz ‘vote em mim’. Existem também as chamadas palavras mágicas, como ‘conto com você’, ‘lembre de mim na hora de votar’ ou ‘conto com seu apoio’. Tudo isso pode ser entendido pela Justiça Eleitoral como pedido explícito de voto.”
Ele afirma que muitos pré-candidatos tentam contornar a legislação utilizando adesivos, outdoors e painéis de LED sem mencionar diretamente o voto, mas apenas reforçando a própria imagem.
“Tenho visto muito uso de outdoor e outdoor em LED. Não há pedido de voto, mas existe a exposição exagerada da imagem do político. Se isso ultrapassar os limites considerados aceitáveis, pode ser entendido como propaganda extemporânea.”
Disparo em massa no WhatsApp
De acordo com o advogado, o disparo em massa de mensagens pelo WhatsApp é uma prática vedada pela legislação eleitoral. Segundo ele, a preocupação já começa ainda na pré-campanha, com grupos políticos estruturando sistemas de envio automatizado de mensagens.
“Os candidatos utilizam muito disso, inclusive com inteligência artificial para tentar burlar os mecanismos do WhatsApp. Mas qualquer pessoa que receba esse tipo de mensagem pode denunciar à Justiça Eleitoral pelo aplicativo Pardal.”
José Caio destaca outro ponto importante: a propaganda negativa contra candidatos, dependendo do tom adotado, pode levar à punição do agente propagador dos ataques contra adversários políticos.
“A propaganda eleitoral precisa ser voltada para o ‘vote em mim’. Você não pode fazer campanha dizendo para o eleitor não votar em outro candidato. Quando a campanha passa mais tempo falando do outro candidato do que de si mesma, ou destacando defeitos do adversário em vez das próprias qualidades, isso pode caracterizar propaganda negativa.”

Uso de IA
É quase unânime entre os entrevistados a preocupação com o uso da Inteligência Artificial. O pesquisador e cientista político Jorge Cordeiro destaca que a principal novidade desta pré-campanha é o uso crescente de inteligência artificial para modificar a imagem pública dos políticos, especialmente em fotografias e vídeos divulgados nas redes sociais. Segundo ele, há uma tentativa de criar uma versão “idealizada” dos candidatos, distante da realidade.
“Existe algum grupo político que está modificando essa fotografia, como se o virtual não alcançasse o real. São perfis que estão ficando cada vez mais artificializados.”
A utilização dessa ferramenta contribui não apenas para a aparência física do candidato, mas também para os cenários e até mesmo para as situações apresentadas ao eleitor. “Estão artificializando essa propaganda pré-eleitoral, mudando principalmente a fotografia e também as imagens e vídeos da prestação de contas ou da relação que eles têm com a comunidade.”
Apesar de parecer piegas, a grande preocupação do especialista em torno do uso das novas tecnologias é a disseminação de conteúdos falsos com aparência de verdade. Segundo ele, vídeos e imagens manipuladas podem induzir o eleitor a decisões equivocadas.
“A preocupação que a gente tem é a disseminação de informação falsa com aparência de realidade. Muitas pessoas em situações muitas vezes constrangedoras ou até criminosas sendo divulgadas em grupos como se aquilo fosse verdade”, destaca.
Apesar disso, Jorge Cordeiro afirma que a manipulação visual política não começou nos dias atuais, mas que foi impulsionada com a chegada da IA. Ele cita, por exemplo, um estudo acadêmico que fez sobre a construção da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Eu escrevi um livro chamado Invenção do Mito: A Construção Visual do Jair Bolsonaro, que era a manipulação da cena política através de imagens. A imagem do herói, do homem de família, do guerreiro militar. Imagina se isso aconteceu em 2018, o que vai acontecer agora? Imagens sendo construídas e distribuídas de maneira a influenciar o voto das pessoas.”

Mídias tradicionais ainda têm o seu valor
Com 40 anos de atuação e participação em dezenas de campanhas, Alexandre Duarte destaca que o material produzido no período oficial de campanha tem forte apelo emocional e tenta aproximar o eleitor da trajetória pessoal do pré-candidato. A intenção é identificar momentos que despertem sentimento genuíno no político e possam criar identificação com o público.
“Geralmente, nós queremos trazer um pouco de emoção nessa peça. Extrair o máximo de emoção, para ver o grau do sentimento dele, qual o ponto que toca ele”, pontua.
Ele entende que a rede social vem ganhando cada vez mais espaço dentro do planejamento de uma eleição, mas defende que a televisão continua tendo papel relevante nas campanhas eleitorais, principalmente pela necessidade de transmitir credibilidade.
“O mais importante é você tentar transmitir a verdade para o eleitor. O problema da internet é que você trabalha muito com fake news. Na televisão, ela não aceita isso.”
Outro fator elencado pelo entrevistado é que, ainda na pré-campanha, as equipes já começam a estruturar a comunicação visual que será utilizada posteriormente. Além disso, materiais produzidos meses antes podem ser reaproveitados oficialmente caso apresentem qualidade estratégica e emocional.
Ele destaca também que o período de pré-campanha é utilizado para corrigir falhas de comunicação e preparar melhor o comportamento do candidato. “É importante, na pré-campanha, você fazer esse trabalho até para saber o que o candidato não tem.”

Nichos estratégicos
O marqueteiro e cientista político Marcos Marinho pontuou que o período de pré-campanha tem sido marcado pela apresentação dos pré-candidatos a públicos específicos e pela busca de conexão com nichos eleitorais estratégicos.
“Hoje nós temos, por conta da tecnologia, várias ferramentas que permitem direcionar frames do candidato que tenham mais aderência a determinadas franjas eleitorais.”
Apesar disso, ele reforça que o objetivo das campanhas não é apenas gerar certa visibilidade, mas transformar apoiadores em uma base ativa de mobilização.
Marcos ainda pontuou sobre os avanços das ferramentas de inteligência artificial, que têm criado dúvidas jurídicas no ambiente eleitoral, principalmente pela ausência de regulamentação mais objetiva da Justiça Eleitoral, o que coloca o uso da tecnologia em um paralelo entre os benefícios e os malefícios.
“Hoje a gente tem tecnologia suficiente para emular qualquer coisa. Você pode colocar palavras do Flávio Bolsonaro na boca do Luiz Inácio Lula da Silva e muita gente vai acreditar.”
Na avaliação do especialista, políticos iniciantes ou figuras públicas sem forte identificação popular podem sofrer mais danos diante de campanhas negativas. Ao mesmo tempo, ele destaca que a consolidação da imagem pública não depende necessariamente da quantidade de mandatos, mas da capacidade de construir legitimidade junto ao eleitorado.
Três pilares
Marcos Marinho afirma ainda que as campanhas eleitorais competitivas precisam ser trabalhadas em três pilares para alcançar resultados. “Uma eleição se vence com três pilares: presença online e offline, legitimidade e capacidade de mobilização.”
Para ele, candidatos acabam restritos à “bolha” de apoiadores por subestimarem a própria força política. “Você precisa conhecer o contexto onde vai disputar a eleição e entender seu real potencial eleitoral.”

Cautela e legislação eleitoral
Renato Monteiro também consolidou uma carreira no marketing político e avalia que o uso das redes sociais na pré-campanha já segue regras bem definidas pela legislação eleitoral.
Ele destaca que o impulsionamento de conteúdos é permitido, desde que respeite limites legais e não envolva pedido explícito de voto ou ataques pagos a adversários.
“Você pode divulgar a imagem, a qualidade do candidato, entrevistas que ele dá, visitas que ele faz. Não pode haver pedido de voto, não pode haver símbolo, logomarca, slogan. O que pode é um trabalho informativo da pré-campanha.”
Um ponto de atenção trazido pelo entrevistado é o uso de redes institucionais de governos e prefeituras para promoção pessoal de gestores que irão disputar as eleições, com publicações que extrapolam o caráter informativo previsto em lei.
“Você vê imagens do político que está no cargo e textos que, ao invés de conteúdo educativo, informativo, de prestação de contas, são mais voltados para a campanha eleitoral.”
Na visão dele, o eleitor já consegue identificar o avanço e o uso exagerado e irrealista da Inteligência Artificial nas campanhas políticas. Renato afirma não enxergar a tecnologia como ameaça, desde que utilizada dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.
“Tudo aquilo que está regulamentado na legislação eleitoral, dentro das normas, das leis brasileiras, eu acho que pode e deve ser usado. O ser humano consegue perceber isso com muita rapidez. O olho, a boca, a entonação… muitas vezes as emoções são falsas.”
Renato também comentou sobre os grupos organizados que atuam nas redes sociais e aplicativos de mensagem, o que chama de “guerrilha digital”. Para ele, essa ação já se tornou algo permanente no ambiente político brasileiro.
“Isso existe mesmo. Além da militância gratuita, você tem profissionais contratados e influencers que, de uma maneira ou de outra, acabam sendo remunerados para reproduzir determinado material. A coisa muitas vezes acontece também no WhatsApp. Aí sim é uma guerrilha digital muito potente.”

Mudança de estratégia
O estrategista digital Rodrigo Martins comenta que o período de pré-campanha busca a sensibilização do eleitor. Antes de pedir voto, o caminho é trilhado na construção de uma identificação entre eleitor e candidato. “A pré-campanha é um momento para o pré-candidato se apresentar para o eleitor, mostrar suas origens, mostrar suas opiniões sobre algumas pautas atuais e opiniões pessoais.”
Rodrigo comenta que, para isso, algumas estratégias têm sido recalculadas, como o abandono de ações genéricas, por exemplo, para focar em conteúdos direcionados a públicos específicos.
“A gente tenta segmentar conteúdo, trabalhar impulsionamento de forma mais segmentada, levar o conteúdo do pré-candidato a um nicho específico antes de aumentar o funil do alcance dele.”
Além disso, o enfoque do marketing político atual tem sido a construção de narrativas coerentes com a trajetória real do candidato. “A gente tenta moldar uma narrativa mais próxima daquilo que o candidato é, para não ficar algo falso. Hoje é muito fácil você desconstruir tanto narrativas quanto personas frágeis e não verdadeiras.”
Citado por entrevistados anteriores, o WhatsApp é uma ferramenta que irá passar por mudanças estratégicas em comparação com pleitos anteriores. Segundo ele, a ideia é substituir grandes disparos por uma rede de “militantes digitais” em grupos locais.
“Em vez de a gente disparar para 100 mil contatos, a gente teria militantes de WhatsApp que teriam grupos locais de famílias, amigos e segmentos específicos. Uma região que tem mais carência de saúde, a gente procuraria um militante ligado a essa área para levar mensagens relacionadas à saúde.”
Outro ponto trazido por ele será a avaliação prévia de saber até onde vale ir para combater uma fake news. Segundo ele, responder imediatamente pode acabar ampliando informações falsas. “Antes de tornar uma resposta oficial a alguma fake news, a gente precisa analisar bem aquilo que está sendo propagado.”
Por causa disso, o primeiro passo é medir o alcance do conteúdo. Caso permaneça restrito, a recomendação costuma ser ignorar.
“A gente tenta analisar o alcance, ver se aquilo propagou, se reverberou na imprensa, se furou a bolha. Se a gente for responder todas as fake news do WhatsApp, a gente começa a dar luz a coisas que não são verdade.”

Redes sociais como vitrine política
Na visão do estrategista digital, as redes sociais continuam sendo determinantes no surgimento de novas lideranças políticas e no fortalecimento de candidaturas. “As redes sociais ainda têm esse papel de difundir, de criar novas lideranças e de expandir aquelas que já estão presentes lá”, pontua.
Ele cita os chamados “outsiders”, que ganharam notoriedade primeiro na internet antes de conquistarem mandatos. “Aquele candidato que já tem alcance e engajamento precisa manter esse relacionamento com quem já segue, mas também furar a bolha.”
Na avaliação dele, rádio e televisão ainda possuem relevância, mas passaram a repercutir pautas que nascem no ambiente digital. “A mídia tradicional hoje replica o que está nas redes sociais.”
O que não pode neste momento?
O professor de Direito Eleitoral Alexandre Azevedo destaca que a legislação eleitoral permite que o pré-candidato realize praticamente todos os atos típicos de campanha, desde que não haja pedido explícito de voto.
“O que é proibido durante a campanha também é proibido na pré-campanha”, destaca. Como exemplo, ele cita a distribuição de brindes para eleitores, prática vedada pela legislação em qualquer etapa do processo eleitoral.
Alexandre alerta para possíveis excessos envolvendo estrutura financeira ou política. “É preciso cuidado para que atos de pré-campanha não configurem abuso de poder econômico ou político, porque isso pode gerar punições posteriores pela Justiça Eleitoral”, afirma.
Uso de aplicativos
Ele explica que o uso de aplicativos de mensagens e grupos digitais para impulsionar nomes de pré-candidatos já é uma prática reconhecida pela jurisprudência eleitoral.
“O entendimento do TSE permite que grupos privados em aplicativos de mensagem realizem atos típicos de campanha sem que isso configure irregularidade eleitoral”, explica.
O principal ponto de cuidado está no alcance artificial dessas mensagens. Para o analista, grupos em que eleitores compartilham espontaneamente suas preferências políticas não representam infração. “O que precisa ser observado com cuidado são os disparos massivos. Quando há manifestação voluntária dos participantes, não existe irregularidade”, diz.
Sobre a temática da IA, Alexandre afirma que o problema tem ultrapassado os limites da Justiça Eleitoral. “O uso de IA, deepfakes e outras ferramentas tecnológicas não é um desafio apenas da Justiça Eleitoral, mas de toda a sociedade”, afirma.
Ele avalia que a disseminação de conteúdos falsos compromete diretamente a confiança democrática. “Existe um rompimento do contrato social quando essas ferramentas são utilizadas para espalhar mentiras e desinformação, especialmente tentando enfraquecer a confiança do eleitorado no processo eleitoral e na segurança das urnas”, declara.
Apesar do cenário desafiador, o analista diz acreditar na capacidade de resposta institucional. “O trabalho será árduo, mas a Justiça Eleitoral conta com magistradas e magistrados experientes, preparados para decidir essas questões com responsabilidade”, conclui.

Fonte: Jornal Opção.

