Fim da escala 6×1 avança e supermercados precisam preparar a transição
Mudança na jornada de trabalho pode levar o varejo alimentar a reorganizar equipes, automatizar processos e rever o funcionamento das lojas
A aprovação do fim da escala 6×1 pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado colocou o varejo alimentar diante de uma mudança que tende a avançar, embora ainda dependa de votação no plenário. Mais do que discutir quem trabalhará em cada dia, o setor precisa começar a planejar como manter atendimento, produtividade e controle operacional com uma nova disponibilidade de horas de trabalho.
A mudança pode trazer benefícios importantes aos profissionais, como mais tempo de descanso, qualidade de vida e melhores condições para permanecer no emprego. Para os supermercados, o desafio será transformar essa nova realidade em uma oportunidade para rever processos que muitas vezes foram construídos com base na disponibilidade contínua de pessoas.
Essa adaptação exige olhar para cinco frentes: dimensionamento das equipes, horários de funcionamento, produtividade, automação e monitoramento dos equipamentos. Cada rede precisará encontrar sua própria combinação. Um atacarejo de 5 mil metros quadrados não opera da mesma forma que um supermercado de vizinhança, assim como redes nacionais e regionais possuem estruturas diferentes.
O primeiro passo deve ser entender como as horas de trabalho são utilizadas. Em vez de simplesmente distribuir a redução da jornada entre os funcionários, as empresas podem mapear os períodos de maior movimento, as atividades que exigem presença humana e as tarefas que podem ser reorganizadas, centralizadas ou automatizadas.
Em uma simulação que realizamos considerando a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com a mesma equipe e o mesmo custo de mão de obra, a capacidade operacional disponível diminui aproximadamente 9%. Em uma loja aberta atualmente durante 98 horas por semana, o ponto de equilíbrio matemático passaria para cerca de 89 horas.
Isso não significa, entretanto, que todas as lojas devam reduzir nove horas de funcionamento. A decisão precisa considerar fluxo de clientes, vendas por faixa horária, custos operacionais, perfil da região e disponibilidade da equipe. Antes de alterar definitivamente os horários, o caminho mais seguro é testar modelos em algumas unidades e acompanhar os resultados.
Além disso, o fechamento da loja não interrompe toda a operação. Câmaras frias, expositores refrigerados, compressores e sistemas elétricos continuam funcionando mesmo quando não há consumidores ou funcionários no local. Em um supermercado de vizinhança, a refrigeração pode representar cerca de 60% da carga energética.
Nossas simulações indicam que uma redução próxima de 9% no tempo de abertura pode gerar aproximadamente 6% de economia de energia, dependendo da configuração da unidade e do controle dos equipamentos. A economia existe, mas não é proporcional ao tempo de fechamento porque grande parte da infraestrutura precisa permanecer ativa.
Por isso, qualquer mudança de horário deve ser acompanhada por um plano técnico. Isso inclui revisar parâmetros de refrigeração e climatização, programar iluminação e equipamentos, identificar ativos críticos e definir quais sistemas podem operar de maneira diferente durante os períodos sem atendimento.
Também é necessário preparar a resposta a falhas. Dependendo do modelo de fechamento adotado, podem surgir janelas de até 34 horas sem inspeção humana direta. Uma falha ocorrida nesse período pode permanecer despercebida e transformar uma manutenção simples em perda de mercadorias ou interrupção da operação.
A solução não está apenas em instalar sensores ou disparar alarmes. É preciso construir uma cadeia entre informação e ação: detectar a anomalia, avaliar sua gravidade, definir o responsável, orientar a intervenção e confirmar que o problema foi resolvido. Alarme sem protocolo é apenas notificação.
A tecnologia pode assumir o acompanhamento contínuo dos equipamentos e direcionar a equipe para situações que realmente exigem decisão. Dessa forma, o profissional deixa de gastar parte de sua jornada procurando problemas e passa a atuar sobre ocorrências já identificadas e priorizadas. Isso não elimina o trabalho humano; aumenta o valor produzido em cada hora trabalhada.
A preparação deve começar antes da mudança entrar em vigor. Os supermercados podem mapear processos, testar novas escalas, capacitar equipes, negociar soluções com os trabalhadores, revisar horários e criar indicadores para acompanhar vendas, consumo de energia, falhas, perdas e produtividade.
O fim da escala 6×1 não precisa ser tratado apenas como aumento de custo ou restrição operacional. Ele pode acelerar uma transformação necessária: operações mais organizadas, profissionais concentrados em atividades de maior valor e decisões baseadas em dados.
A pergunta central, portanto, não é apenas como montar uma nova escala, mas como preservar atendimento e controle com uma organização diferente do trabalho. Os supermercados que iniciarem essa preparação desde agora terão mais condições de realizar uma transição equilibrada para trabalhadores, consumidores e empresas.
Fonte: Monitor Mercantil.
Foto: Ilustrativas / Banco de Imagens.

