Clima

El Niño em Goiás: documento alerta para riscos à saúde, agricultura e escassez de água em 2026 e 2027

Estudo reúne pesquisadores de cinco centros científicos goianos

Pesquisadores de cinco Centros de Excelência apoiados pelo Governo de Goiás elaboraram uma nota informativa para alertar quanto aos possíveis impactos do El Niño no Estado em 2026 e 2027. O documento aponta riscos de calor acima da média, chuvas irregulares e reduzidas, com possíveis consequências para o abastecimento de água, a produção agrícola, as queimadas e a saúde pública.

O documento alerta “para o estado de Goiás, um episódio de El Niño com intensidade muito forte tende a favorecer temperaturas acima da média, especificamente entre o final da primavera e início do verão, além de influenciar na redução das chuvas”.

A preocupação vai além da elevação das temperaturas. A irregularidade das chuvas pode prolongar a estiagem, pressionar os mananciais, alterar o calendário agrícola e manter condições favoráveis a queimadas e incêndios florestais. Os efeitos também podem chegar à saúde pública, com o agravamento de doenças associadas ao calor e à exposição à fumaça.

A nota projeta que, entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027, o fenômeno poderá interferir na distribuição das precipitações. Segundo os pesquisadores, há “alta probabilidade, entre 70% e 90%, de valores acima da média climatológica em praticamente todo o território goiano, indicando a persistência de condições mais quentes que o padrão esperado para o período”.

Os autores ressaltam que os impactos podem variar de uma região para outra e defendem o acompanhamento contínuo das condições climáticas. O objetivo é subsidiar decisões do poder público e de setores produtivos antes que possíveis prejuízos se agravem.

Histórico acende alerta

Em Goiás, os efeitos do El Niño costumam se manifestar por alterações no regime de chuvas e temperaturas. A nota define o El Niño-Oscilação Sul (ENOS) como “um fenômeno de variabilidade climática resultante da interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico tropical”.

O documento recupera episódios anteriores para contextualizar os riscos. Na primavera de 2015, as temperaturas em Goiás ficaram entre 2 °C e 3 °C acima da média climatológica, colocando o Estado entre os que registraram as anomalias mais intensas do país. Naquele período, também houve déficit de chuvas em uma área extensa do território goiano.

comparação com a primavera de 1982, quando não houve um padrão seco generalizado, indica que os efeitos variam entre os episódios. Para os pesquisadores, esse histórico reforça a importância de considerar tanto as projeções climáticas quanto as particularidades regionais no planejamento.

Abastecimento de água e produção agrícola

Um dos principais pontos de atenção é a segurança hídrica. A nota afirma que “um atraso na consolidação das chuvas poderá prolongar o período de estiagem e aumentar a pressão sobre os mananciais utilizados para o abastecimento público, irrigação, dessedentação animal, indústria e geração de energia”.

A redução da disponibilidade de água pode ampliar a disputa pelo recurso entre diferentes atividades. De acordo com os pesquisadores, “a diminuição da disponibilidade hídrica poderá aumentar a pressão sobre os sistemas de captação e elevar a possibilidade de conflitos entre diferentes usos da água”.

Na agricultura, o risco envolve o calendário de plantio e os efeitos em cadeia sobre as safras. A nota destaca que “é esperado o atraso da semeadura da soja em Goiás em relação ao calendário do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc)”.

Com o possível adiamento do plantio, a colheita também pode ocorrer mais tarde, reduzindo o intervalo disponível para a semeadura de milho e sorgo na segunda safra. O documento alerta que “o atraso na semeadura tende a deslocar também a colheita, comprometendo a semeadura do milho e sorgo safrinha (2ª safra), estando mais vulneráveis aos tardios veranicos e ao encurtamento do ciclo chuvoso no outono”.

O problema é especialmente relevante para as lavouras implantadas no início da estação chuvosa. Segundo a nota, “para plantios de outubro, essa janela crítica coincide justamente com os meses de novembro e dezembro, período em que o prognóstico climático indica precipitação abaixo da média e distribuição irregular das chuvas em Goiás”.

Queimadas e impactos na saúde

A combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade e atraso na regularização das chuvas também pode prolongar as condições favoráveis à ocorrência de incêndios. A nota afirma que “a possível atuação de um episódio de El Niño entre 2026 e 2027 poderá aumentar a suscetibilidade de Goiás às queimadas e aos incêndios florestais, especialmente caso se confirmem temperaturas acima da média, chuvas irregulares e períodos prolongados de estiagem”.

Além dos danos ambientais, a fumaça pode comprometer a qualidade do ar e aumentar a exposição da população ao material particulado. Esse cenário exige atenção dos serviços de saúde, especialmente durante períodos prolongados de calor e baixa umidade.

Entre os principais riscos clínicos, os pesquisadores destacam “desidratação e agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais”. A nota também recomenda monitoramento das arboviroses, particularmente da dengue, uma vez que “temperatura e precipitação modificam as condições favoráveis à transmissão”.

Os efeitos, segundo o documento, não devem ser uniformes em todo o Estado. Por isso, os pesquisadores defendem que as autoridades considerem as diferenças regionais na preparação da rede assistencial e nas ações de prevenção.

Cinco centros integram as pesquisas

A nota reúne pesquisadores dos Centros de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado), em Segurança Hídrica do Cerrado (Cehidra Cerrado), em Tecnologia e Inovação em Saúde (CETI-Saúde), em Genética e Genômica (CEGGen) e Agricultura Exponencial (Ceagre).

Os centros são apoiados pelo Governo de Goiás, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), e estão vinculados à Universidade Federal de Goiás (UFG), à Universidade Estadual de Goiás (UEG), à Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e ao Instituto Federal Goiano (IF Goiano).

Entre as recomendações estão intensificar o monitoramento climático e hidrológico, acompanhar a disponibilidade de água, reforçar o planejamento agrícola, ampliar a prevenção de incêndios e preparar os serviços de saúde para possíveis efeitos do calor, da fumaça e das arboviroses. A integração das informações produzidas pelas instituições busca orientar medidas preventivas diante dos riscos projetados para Goiás.

Fonte: Jornal Opção.

Foto: Reprodução / Jornal Opção.

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