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PCC e CV: classificação como grupos terroristas tem ares de ajuda, mas contornos de oportunismo

Desde o ano passado, representantes norte-americanos estiveram em Brasília (DF) e São Paulo (SP) para ter mais detalhes sobre a ameaça do PCC e os impactos da facção não só no Brasil, mas também de maneira internacional. Debate sobre segurança é válido, mas não pode impactar a soberania nacional

A tentativa do governo dos Estados Unidos em classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas tem causado mais um ponto de divergência com o governo brasileiro e o país norte-americano. Isso porque as autoridades locais não entendem a necessidade de tal comparação tendo em vista às consequências que isso pode trazer de uma possível intervenção americana em solo brasileiro.

Desde o ano passado, representantes norte-americanos estiveram em Brasília (DF) e São Paulo (SP) para ter mais detalhes sobre a ameaça do PCC e os impactos da facção não só no Brasil, mas também de maneira internacional. Um levantamento realizado pelo Ministério Público de São Paulo mostra que o PCC já está presente ao menos em pelo menos 28 países e que se infiltrou em presídios no exterior com o objetivo de recrutamento de novos membros e expandir negócios com tráfico de drogas e armas, além da lavagem de dinheiro. Ao todo, são 2.078 integrantes onde a maioria está dentro das prisões.

Esse relatório, inclusive, tem sido compartilhado com embaixadas e consulados fora do país para uma cooperação internacional no combate a crimes transnacionais em pelo menos quatro continentes. Outro fator que chama atenção é que os integrantes da facção não têm procurado outros países como destinos de viagens temporárias, mas também como moradia fixa e infiltração em cadeiras, que é uma espécie de “marca registrada” da facção criminosa paulista.

Porém, especialistas entendem que as facções criminosas não são grupos terroristas, mas, sim, organizações criminosas transnacionais com características de máfia. No Brasil, subtende-se que grupos terroristas são aqueles que incitam o ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo. As facções tem um foco puramente comercial: lucro e dominação territorial.

Além disso, é notório que o tema tem ganhado contorno político, o que pode levar a discussão para um lado perigoso. Há a falsa interpretação de que a tal classificação de terrorismo traria um certo endurecimento de penas ou intervenção estrangeira “milagrosa”.

“O discurso político se apropriou desse tema. Então, parte da população, influenciada por uma corrente política, acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas ou na recuperação de ativos. Outros acham que vai haver uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil para acabar com essas facções, o que, de fato, não é a realidade. (…) O que a gente precisa é de cooperação e atuação conjunta, não é meramente uma classificação e uma intervenção de ordem militar que vai auxiliar o combate”, afirmou o promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco/MP-SP), Lincoln Gakiya, em entrevista ao programa Estúdio I, da GloboNews.

O promotor destaca que a classificação pode criar barreiras burocráticas e econômicas que hoje não existem. Com isso, troca de dados entre o Ministério Público brasileiro, FBI e do DEA (Departamento de Combate às Drogas americano) ocorre de forma fluida via cooperação policial. Com a classificação, as informações podem subir para o nível “confidencial”, passando a atribuição da CIA. Isso dificultaria o acesso direto dos investigadores brasileiros aos dados.

Além disso, o promotor destacou que o Brasil pode sofrer sanções econômicas e dificuldades de acessos a bancos multilaterais, como o Banco Mundial e o BID, além de abrir caminho para que os Estados Unidos autorizem ações militares fora de seu território para combater esses grupos. O que demonstra mais uma vez a expansão pelo poder, que é uma marca de Donald Trump.

“Ao contrário do que possam imaginar as pessoas, não é a classificação do PCC ou do Comando Vermelho como organizações terroristas que vai nos auxiliar, nós que estamos aqui no combate na ponta, a melhorar ou a ter mais eficiência nas investigações e no combate ao crime organizado”, aponta Lincoln Gakiya.

Nos primeiros dias do ano, o governo americano realizou uma ofensiva na Venezuela que levou à captura do então presidente do país, Nicolás Maduro. A justificativa dada era que ele seria responsável por comandar o Cartel de los Soles, que foi reconhecida como organização terrorista justamente pelo governo de Donald Trump.

A ação foi vendida como parte da guerra contra o narcotráfico, mas no meio do caminho, o controle da PSVSA (Petróleos da Venezuela) entrou em ação. Ou seja, empresas americanas puderam explorar na região, que conta com uma das maiores reservas de petróleo do mundo.

Para críticos da política externa americana, o padrão é familiar. Primeiro se constrói a narrativa de ameaça, com terrorismo, drogas ou defesa da democracia, e depois se legitima a intervenção.

Vale destacar que o objetivo deste texto não é defender as facções criminosas, mas precisamos ter consciência que muitas das decisões de reconhecer grupos de vários países como terroristas têm ocorrido de maneira unilateral pelos EUA e seus aliados. Além disso, diversos ataques realizados pela potência americana têm sido realizados sem qualquer aviso às Nações Unidas e até mesmo sem passar pelo conhecimento do Congresso americano. O que nos leva a questionar sobre a legitimidade dessas operações: Trump quer ajudar o mundo ou quer apenas se aproveitar de uma pauta para conseguir seus objetivos.

Aqui ainda vai outro questionamento: com possíveis intervenções americanas em solo brasileiro, há pessoas que acreditam que haverá mais segurança. Mas como irá combater a violência em outros países, sendo que os EUA têm um histórico que se perpetua há décadas de altos índices de violência urbana? Não é difícil você encontrar casos de massacres em escolas, ataques armados e atentados contra autoridades em diversas cidades americanas. Não seria melhor cuidar o seu quintal, antes de querer cobrar o do seu vizinho?

A discussão merece um debate amplo e sem deixar a ideologia política falar mais alto. Essa classificação traria quais benefícios para o Brasil? Esses grupos poderão ser extinguidos de uma vez? A população brasileira não teria mais problema com violência? Ou os Estados Unidos têm interesses escusos por trás dessa situação? O debate sobre Segurança Pública é válido e um clamor das pessoas, mas isso tem que ser feito sem colocar em risco à soberania nacional.

Fonte: Jornal Opção.
Foto: Jornal Opção.

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