Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na prática?
Serra Verde é a única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras. Além da aquisição, o acordo inclui um contrato de fornecimento de 15 anos.
A venda de uma mina localizada em Minaçu, na região norte do estado, coloca Goiás ainda mais em evidência no cenário mundial de terras raras. A Serra Verde, única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), foi adquirida pela USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, aproximadamente R$ 14 bilhões. Entenda abaixo o que isso significa.
As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para o funcionamento de diversos produtos modernos — de smartphones e televisores a câmeras digitais e LEDs. Apesar de usados em pequenas quantidades, eles são insubstituíveis. A maior parte desses minerais está concentrada em dois pontos: na China e no Brasil.
A compra foi anunciada pela empresa norte-americana na segunda-feira (20) e prevê a combinação das operações das duas companhias para liderar toda a cadeia produtiva, desde a extração das terras raras, às etapas de separação, processamento dos elementos, até a fabricação de ímãs permanentes.
Do montante de US$ 2,8 bilhões, US$ 300 milhões serão pagos em dinheiro e o restante em ações. Além da aquisição, o acordo inclui um contrato de fornecimento de 15 anos. Também serão estabelecidos preços mínimos para os minerais, o que garante previsibilidade de receita e reduz riscos para a operação.
Em entrevista ao g1, Ricardo Grossi, presidente e diretor de operações da Serra Verde, informou que a venda não irá promover mudanças imediatas na operação no Brasil e que a gestão local segue inalterada.
“A mina e a planta em Minaçu seguem operando normalmente, sob a liderança da equipe atual, com continuidade da estratégia já em curso. A operação permanece focada no ramp-up e na expansão previstos, e a gestão local segue inalterada. Ao mesmo tempo, o acordo fortalece a empresa ao dar acesso a tecnologia ao longo de toda a cadeia produtiva e maior integração global, sem alterar o dia a dia da operação”, explicou.
A mineradora iniciou sua produção comercial em janeiro de 2024. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, foram exportadas quase 678 toneladas de terras raras para a China.
No entanto, em 2026, Goiás exportou apenas 2 toneladas para os Estados Unidos, com valor de US$ 67 mil. No ano passado, foram exportados 51 kg para os norte-americanos.
Impasse
Na sexta-feira (24), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o subsolo do território brasileiro pertence à União e que cabe a ela regulamentar a exploração de terras raras e minerais críticos.
Em entrevista ao programa à emissora governamental Canal Gov na sexta-feira (24) , ele ressaltou que o memorando de entendimento entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para a exploração de terras raras no estado tem um vício de inconstitucionalidade e “não se sustenta”.
O g1 entrou com o governo de Goiás para pedir um posicionamento sobre a declaração do ministro, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Além disso, deputados do PSOL chegaram a protocolar, na última quarta-feira (22), uma representação na Procuradoria-Geral da União (PGR) questionando a legalidade da aquisição da mineradora Serra Verde pela empresa americana USA Rare Earth (USAR).
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Vai gerar empregos em Goiás?
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Atualmente, a mineradora emprega cerca de 400 pessoas no município de 27 mil habitantes, sendo aproximadamente 72% da força de trabalho formada por moradores da região.
De acordo com o presidente da Serra Verde, há expectativa de que a venda gere novos empregos em Goiás.
“A empresa combinada terá receitas asseguradas por um acordo de fornecimento de 15 anos, uma estrutura financeira sólida, operações diversificadas em várias partes do mundo e acesso a tecnologia de ponta no setor, o que a posiciona como líder global”, disse Grossi.
Inicialmente, o foco da mineradora continua sendo a execução do projeto de otimização e expansão para elevar a produção para 6,4 mil toneladas por ano de óxidos de terras raras até o fim de 2027. “Depois disso, a empresa combinada estará em uma posição mais forte para crescer e investir, potencialmente criando novas funções e promovendo um desenvolvimento econômico significativo em torno de Minaçu”, destacou.
Em entrevista ao g1, o prefeito Carlos Leréia (PSDB) disse que o acordo é um avanço importante não apenas para Minaçu ou para o estado, mas para o país. “Eu vejo que é um ganho significativo para o Brasil e especialmente para a minha cidade”, ressaltou.
“A mineração gera muito emprego e não só empregos só do período da pesquisa. Quando você vai implantar é muito emprego, depois quando você vai extrair continua muitos empregos. Então, é extremamente importante. E também a garantia do dinheiro, porque antes estavam vendendo para a China e o valor era muito reduzido. Agora os valores do quilo, da tonelada, vai aumentar em torno de seis a oito vezes”, afirmou.
Leréia relatou que a população encara com otimismo o investimento em terras raras na região, tendo em vista que a legalidade da extração de amianto, que era uma das bases da economia local, está em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
“A Serra Verde preencheu esse espaço ofertando emprego e aumentando a movimentação econômica da cidade”, destacou o prefeito.
Centro da cadeia
Para a presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), Adriana Pereira de Sousa, a operação coloca o estado de Goiás no centro de uma cadeia produtiva estratégica para a economia global contemporânea.
De acordo com Adriana,municípios como Minaçu, onde se concentram operações minerais desse tipo, tendem a experimentar o aumento da arrecadação via royalties (CFEM), expansão da atividade econômica e maior circulação de renda.
No entanto, a especialista ressaltou que os efeitos fiscais mais robustos — como aumento significativo de arrecadação e geração consistente de empregos — tendem a se materializar no médio e longo prazo.
“A geração de empregos diretos e indiretos é uma possibilidade concreta, mas depende do grau de integração da empresa com fornecedores locais, da exigência de conteúdo local e de políticas de qualificação profissional. Sem essas condições, há o risco de que os benefícios sejam parcialmente ‘vazados’ para fora da economia regional, com importação de insumos e mão de obra especializada”, destacou.


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