Conheça a trajetória das três goianas entre as 100 mulheres mais poderosas do agro brasileiro, segundo a Forbes
Conheça as histórias de uma pecuarista, uma executiva do mercado de sementes e uma empreendedora que conecta startups ao campo
Três mulheres que atuam em diferentes frentes do agronegócio goiano estão entre as 100 mulheres poderosas do agro brasileiro, lista elaborada pela Forbes Brasil. Ana Amélia Paulino, Camila Colpo e Nathália Secco representam trajetórias distintas, que passam pela pecuária, pela produção de sementes e pela inovação tecnológica. Em comum, elas têm a atuação em um setor historicamente marcado pela presença masculina e a busca por ampliar a participação feminina em posições de liderança.
Em Porangatu, Ana Amélia Paulino construiu sua trajetória entre a administração de propriedades rurais e a representação dos produtores. Advogada de formação, ela se tornou a primeira mulher a presidir o Sindicato Rural do município, após enfrentar resistências para ocupar espaços de decisão. À frente das fazendas da família, também trabalha com pecuária de cria e criação de cavalos, conciliando a atividade rural com a defesa dos interesses do setor.
Em Formosa, Camila Colpo ocupa uma posição estratégica em uma das principais empresas brasileiras de sementes. Engenheira-agrônoma formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ela preside o conselho de administração da Boa Safra Sementes desde 2015, participando do desenvolvimento de uma companhia que alcançou projeção nacional. Já em Rio Verde, Nathália Secco percorreu um caminho diferente: depois de construir carreira na música, direcionou sua experiência para o empreendedorismo e fundou uma aceleradora de agtechs voltada à aproximação entre startups e o agronegócio.
As histórias das três mostram como a presença feminina no agro se manifesta em diferentes áreas, da gestão de propriedades e empresas à incorporação de novas tecnologias no campo. Com experiências que conectam tradição familiar, formação técnica e empreendedorismo, Ana Amélia, Camila e Nathália ajudam a ilustrar as transformações de um setor que depende cada vez mais de conhecimento, inovação e capacidade de gestão para ampliar sua competitividade.
Ana Amélia: do sonho de infância à Forbes
Ana Amélia Paulino tinha um destino traçado pela família: seguir a carreira do pai, advogado com clientela consolidada em São Paulo. Ela, porém, tinha outros planos. Desde criança, sonhava em viver na roça e trabalhar com a atividade rural desenvolvida pela família no Norte de Goiás. A decisão de trocar a cidade grande pelas fazendas não foi bem recebida em casa, mas se tornou o ponto de partida de uma trajetória que a levaria à presidência do Sindicato Rural de Porangatu e ao reconhecimento nacional.
Pecuarista e advogada de formação, Ana Amélia está entre as 100 mulheres poderosas do agronegócio brasileiro, lista elaborada pela Forbes Brasil. À frente das propriedades rurais da família desde 2005, ela também preside a Comissão de Equideocultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e se tornou a primeira mulher a comandar o sindicato rural do município.
A história começou muito antes dos cargos e das premiações. As visitas às propriedades durante as férias escolares alimentaram o desejo de trocar a rotina urbana pela vida no campo. A lembrança de uma conversa com o avô ajuda a explicar a escolha.
Desde que eu nasci eu queria morar na roça, eu matava aula na escola e que meu avô um dia falou pra mim, minha filha tem que estudar, se quem não estuda vai pra roça. Eu falei, então pronto, resolvi meu problema, é só não estudar
A brincadeira de infância, no entanto, não significava que ela deixaria os estudos de lado. Ana Amélia se formou em Direito e, em 2000, mudou-se para Goiás para assumir o trabalho nas fazendas. A decisão provocou um rompimento familiar. O pai queria que ela desse continuidade ao legado profissional dele em São Paulo e não acreditou, inicialmente, que a filha estivesse preparada para a atividade rural.
“E eu vim pra cá, quando eu vim meu pai me tirou da fazenda, me colocou pra fora e mandou eu me virar, né? Achando que tava querendo brincar de ser fazendeira, vamos dizer assim”, relata.

Longe das propriedades, Ana Amélia encontrou outro caminho para se manter. Trabalhou como professora de História e Geografia e também deu aulas na Universidade Estadual de Goiás (UEG), onde permaneceu por 12 anos. A reaproximação com o pai aconteceu depois de uma experiência na política municipal. Em 2004, ela trabalhou em uma campanha eleitoral e recebeu elogios pelo desempenho. A avaliação positiva fez o pai reconsiderar a decisão.
“E aí em 2004 eu trabalhei numa campanha eleitoral aqui do município e aí falaram pro meu pai que eu tinha trabalhado muito bem, tinha feito muito bem e aí meu pai viu que eu tava no caminho certo, me chamou e me passou a administração das fazendas”, conta.
Desde então, Ana Amélia passou a administrar as três propriedades rurais da família, localizadas em Trombas, a cerca de 30 quilômetros de Porangatu. Na Fazenda Barra das Onças, a atividade é voltada à pecuária de cria, com matrizes bovinas e manejo direcionado ao desenvolvimento dos animais. A propriedade também abriga sua paixão pelos cavalos: ela mantém um plantel de 69 éguas de corrida da raça Quarto de Milha.
A gestão das fazendas também trouxe novos desafios. A pecuarista aposta na tecnologia para melhorar o controle do rebanho. Segundo ela, os animais são identificados por chips e bottons, o que permite acompanhar o desenvolvimento das matrizes e dos bezerros. Para Ana Amélia, a rastreabilidade é uma exigência que deve fazer parte do futuro da pecuária, e não um obstáculo à produção.
“Eu não vejo dessa forma”, afirma sobre a possibilidade de a rastreabilidade se tornar um entrave para os produtores. Ela reconhece os custos envolvidos, mas defende que sindicatos e associações encontrem alternativas para facilitar o acesso dos pequenos pecuaristas às ferramentas necessárias.
A preocupação com quem produz também orienta sua atuação sindical. Ana Amélia entrou na diretoria do Sindicato Rural de Porangatu entre 2010 e 2011, tornando-se a primeira mulher a ocupar uma vaga na direção. Durante esse período, participou de iniciativas ligadas à equideocultura, como a criação de um shopping de cavalos, e de projetos voltados à ecoterapia.
Depois de duas gestões na diretoria, decidiu disputar a presidência. O caminho, mais uma vez, foi marcado por resistência. Ela relata ter enfrentado questionamentos e dificuldades para viabilizar a candidatura, em um ambiente no qual a presença feminina em posições de liderança ainda provoca desconfiança. Em 2023, voltou a se candidatar e conseguiu assumir o comando da entidade, tornando-se pioneira no cargo.
Para ela, o machismo no agronegócio não se limita a episódios isolados. A pecuarista afirma que mulheres precisam demonstrar repetidamente sua capacidade e enfrentam julgamentos diferentes dos dirigidos aos homens.
“A mulher, eu sempre falo que a mulher é testada, retestada, reprovada, até ela entrar num carro”, diz.
Ana Amélia avalia, porém, que a participação feminina não deve ser entendida como uma disputa com os homens, mas como uma contribuição para ampliar as perspectivas do setor. Na rotina das propriedades, ela acredita que a sensibilidade para perceber as condições dos trabalhadores pode complementar a visão técnica da atividade.
“O que a gente tem que entender é que mulheres e homens têm características comportamentais diferentes e conseguem ter visões que podem agregar muito para o agronegócio”, afirma.
O reconhecimento da Forbes chega em um momento em que ela pretende ampliar essa contribuição para além das próprias fazendas. Ana Amélia diz que seu principal objetivo é transformar a maneira como o sindicalismo rural se relaciona com os produtores, especialmente aqueles que enfrentam dificuldades para permanecer na atividade.
“O meu sonho é deixar o legado de um sindicalismo diferenciado”, resume.
A proposta, segundo ela, é aproximar pequenos, médios e grandes produtores das entidades representativas e ampliar o acesso à orientação, à capacitação e às políticas públicas. O Sindicato Rural de Porangatu, afirma, oferece cursos e treinamentos a 16 assentamentos, iniciativa que considera importante para fortalecer o vínculo dos trabalhadores com o setor.
E que os pequenininhos também venham pra dentro do sindicalismo. O sindicalismo é pra todos. Pra orientar
A atuação também passa pela defesa de medidas que ajudem a reduzir os custos de produção e facilitem o acesso ao crédito rural. Ana Amélia cita o endividamento de pecuaristas e as dificuldades para conseguir recursos como questões que exigem atenção das entidades representativas e dos governos. Para ela, o papel do sindicato é ouvir as demandas de quem está na base e buscar soluções que permitam a continuidade da produção.
Apesar de já ter sido apontada como possível candidata a prefeita, ela afirma que, neste momento, não pretende entrar na política partidária. Sua prioridade continua sendo a defesa dos produtores rurais. “O meu partido é o partido do produtor rural. Eu trabalho para o produtor rural”, declara.
A vida na fazenda, segundo Ana Amélia, também transformou sua maneira de enxergar as pessoas e a liderança. Longe do ambiente de escritório, ela passou a acompanhar de perto as dificuldades de quem trabalha sob o sol e depende de condições climáticas favoráveis para produzir. A experiência, afirma, ensinou humildade, resiliência e espírito de coletividade.
“Humildade, resiliência, espírito de coletividade”, responde ao falar sobre o que aprendeu com a rotina rural.
É esse vínculo com o campo que ela pretende preservar como parte de seu legado. Mais do que ocupar espaços de liderança, Ana Amélia quer contribuir para que o agronegócio seja compreendido como uma atividade que movimenta a economia, sustenta municípios e envolve produtores de diferentes portes. “E que minha filha possa ter orgulho da mãe que ela tem. Falar, ó, minha mãe fez isso”, diz.
Entre a menina que sonhava em morar na roça e a pecuarista reconhecida nacionalmente, a trajetória foi marcada por escolhas difíceis, recomeços e resistência. Agora, Ana Amélia quer usar a experiência acumulada nas fazendas e no sindicalismo para aproximar o setor da sociedade e abrir espaço para que mais produtores sejam ouvidos.
Nathália Secco: da música à tecnologia

Aos 14 anos, Nathália Secco gravou o primeiro CD pela Universal Music e começou a construir uma carreira na música. Em 2004, lançou um videoclipe e um álbum no programa do Faustão. Mais de duas décadas depois, seu nome ganhou espaço por outro motivo: o trabalho para aproximar startups de tecnologia do agronegócio brasileiro. A transição entre os dois universos, no entanto, não significou o abandono da criatividade que a acompanhava desde a infância. Foi justamente essa característica que a levou a empreender e a apostar na inovação como ferramenta para transformar o campo.
Natural de Goiás, Nathália começou a cantar por volta dos seis anos. Aos 16, conheceu a música clássica, interessou-se pelo canto lírico e ingressou na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde se formou em Música e Canto Lírico. Enquanto desenvolvia a carreira artística, também acompanhava de perto o agronegócio, atividade que sempre esteve presente na vida familiar. Seus pais foram produtores rurais e mantiveram, por mais de 40 anos, uma revenda agrícola.
O interesse pelo universo dos negócios levou Nathália a buscar formação em liderança e gestão. Ela cursou MBA na Fundação Getulio Vargas (FGV) e, por volta de 2016, aprofundou os estudos em inovação e investimentos, com especializações na Universidade Stanford e na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
A experiência acadêmica e profissional abriu caminho para uma mudança de perspectiva. Ao conhecer empresas de tecnologia e startups com soluções voltadas ao campo, Nathália percebeu uma oportunidade: levar essas ferramentas ao mercado brasileiro e aproximar os empreendedores dos desafios reais enfrentados pelos produtores.
E tudo isso me fez perceber que eu poderia, além de levar soluções e empresas, startups, que eu conheci ali, para o Brasil, para o mercado brasileiro do agronegócio, que precisa de tecnologia e investe muito em tecnologia
A ideia ganhou forma em Rio Verde, município do sudoeste goiano reconhecido pela força do agronegócio. Em 2019, ela fundou a Orchestra Innovations Center, aceleradora de empresas de tecnologia agrícola, as chamadas agtechs. A proposta era ajudar startups brasileiras e estrangeiras a desenvolver mercado, adaptar soluções e testar tecnologias em propriedades rurais, indústrias e empresas do setor.
O empreendimento nasceu em um ambiente que ainda não contava com uma estrutura consolidada de inovação aberta dedicada exclusivamente ao agronegócio. Para Nathália, construir esse modelo fora dos grandes centros de negócios exigiu mais do que trazer referências internacionais: foi necessário adaptar a experiência à realidade regional e demonstrar, na prática, os benefícios das tecnologias.
“Então, a gente não estava em um grande centro de negócios e de inovação em si, em um grande centro do agronegócio. Então, a gente teve que adaptar. E esse pioneirismo foi um desafio muito grande”, relata.
A empresária destaca que a Orchestra foi a primeira aceleradora do Centro-Oeste dedicada exclusivamente ao agronegócio. A iniciativa também contribuiu para inserir Rio Verde nas redes de inovação que conectam empresas, investidores e empreendedores de diferentes países.
Além da aceleradora, Nathália criou a Orchestra Ventures, gestora de investimentos que atua com startups e capital de risco. A estrutura ampliou a possibilidade de apoiar empresas de tecnologia e conectar soluções desenvolvidas no Brasil e no exterior às demandas do setor agropecuário.
O trabalho resultou em tecnologias aplicadas a aproximadamente 200 mil hectares de lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, conforme o histórico da iniciativa. Entre as soluções estão ferramentas de inteligência artificial para mapear áreas e identificar focos de plantas daninhas, permitindo direcionar a pulverização de herbicidas e reduzir desperdícios.
Segundo Nathália, algumas tecnologias aplicadas no campo proporcionaram redução de até 80% nos custos com herbicidas. Ela também relata que algumas empresas atendidas pela aceleradora chegaram a triplicar o faturamento durante um período de três meses no programa de aceleração.
O objetivo, explica, não é apenas apresentar uma tecnologia ao produtor, mas fazer com que ela funcione nas condições reais da operação agrícola. Por isso, a aceleradora trabalha com empresas que já possuem produtos desenvolvidos e precisam ampliar sua presença no mercado, além de adaptar soluções estrangeiras às características do agronegócio brasileiro.
A empresária reconhece, porém, que o acesso à inovação ainda é desigual. No Brasil, muitas startups concentram seus esforços em grandes propriedades, onde conseguem alcançar uma escala maior de negócios. Para pequenos produtores, existem soluções específicas de gestão, crédito e mecanização, mas a ampliação do acesso também depende de condições que permitam investir nessas ferramentas.
Mas, no termo de investimento, já se vê investimento sendo feito em startups para desenvolver tecnologias e para os produtores pequenos
Nathália defende que a inovação deve contribuir tanto para aumentar a produtividade quanto para tornar a produção mais sustentável. Entre as tecnologias que considera estratégicas para o futuro do setor está a biotecnologia, especialmente pelo potencial de desenvolver insumos mais eficientes e reduzir a dependência de produtos químicos.
“Eu acredito muito na biotecnologia, né, porque a gente tem visto muito a mudança nas soluções agrícolas nos últimos anos aí”, diz.
A trajetória na inovação também levou a empresária a receber reconhecimento internacional. Em 2021, ela foi selecionada para uma lista da Forbes voltada a empreendedores e lideranças em tecnologia e inovação e integrou uma seleção de mulheres inovadoras no setor. Em 2025, recebeu uma premiação na categoria de tecnologia agrícola durante o Global Women in Agritech, realizado na Bélgica, no qual foi a única brasileira premiada, segundo seu relato.
Agora, Nathália integra a lista das 100 mulheres poderosas do agronegócio brasileiro da Forbes Brasil. Para ela, a presença na seleção representa não apenas uma conquista individual, mas o reconhecimento de um trabalho desenvolvido ao longo de anos para aproximar o setor agropecuário dos ecossistemas de inovação.
“Então, assim, é uma responsabilidade estar nessas listas, todas elas. E também é uma alegria por saber que o nosso trabalho árduo de tantos anos, ele está sendo e sempre foi, nesse tempo, sempre vem sendo apoiado”, afirma.

Apesar da mudança de carreira, a música continua fazendo parte de sua vida. Nathália ainda realiza trabalhos artísticos, mas agora tem liberdade para escolher repertórios e projetos sem depender exclusivamente da atividade. Ela conta que sentia falta de criar algo próprio e exercer a liderança, desejo que encontrou no empreendedorismo.
“Eu sentia que faltava algo, que eu tinha o desejo de liderar, de desenvolver algo meu, sabe, do zero, e liderar algo, e foi aí eu sempre fui muito criativa, então eu queria criar algo diferente”, explica.
A expansão dos negócios também ganhou uma dimensão internacional. Nathália afirma que a Orchestra Ventures abriu uma operação em Orlando, nos Estados Unidos, e passou a atuar em uma nova frente de investimentos no setor imobiliário, além do venture capital.
Entre a carreira artística e o empreendedorismo, a empresária construiu uma atuação que une criatividade, gestão e tecnologia. Seu objetivo é fazer com que soluções desenvolvidas por startups cheguem às propriedades rurais e produzam resultados concretos, ao mesmo tempo que fortalece a presença de Rio Verde e de Goiás no cenário internacional da inovação aplicada ao agronegócio.
Camila Colpo
Aos sábados, enquanto muitas crianças aproveitavam o tempo livre em casa, Camila Colpo esperava a oportunidade de acompanhar o pai na fazenda. Entre colheitas, plantios e lavouras irrigadas, ela descobria um universo que, anos mais tarde, se tornaria sua profissão. Filha de um engenheiro agrônomo que apostou no potencial agrícola do Cerrado, Camila transformou a convivência com o campo em uma trajetória empresarial que hoje a coloca entre as 100 mulheres poderosas do agronegócio brasileiro, segundo a Forbes Brasil.
Nascida em Brasília, ela se mudou com a família para Formosa, no Entorno do Distrito Federal, aos três anos. Foi no município goiano que cresceu, acompanhou a expansão dos negócios familiares e construiu sua ligação com o agronegócio. Seus pais, gaúchos, chegaram a Goiás quando a abertura de novas áreas agrícolas do Cerrado ainda despertava desconfiança. O pai, engenheiro agrônomo e produtor rural, enxergou na região condições favoráveis para a produção de sementes de alta qualidade.
Uma história contada por ele à família traduzia essa disposição para apostar no que ainda não era evidente para todos. Ainda solteiro, durante uma viagem de Carnaval à Bahia, ele conheceu um homem interessado em se desfazer de uma propriedade e acabou trocando seu Fusca por um pedaço de terra no Cerrado.
“Naquela época, era uma área de Cerrado que ainda não produzia nada, mas ele conseguiu enxergar ali um potencial que poucas pessoas enxergavam”, conta Camila.
A experiência do pai foi decisiva para a escolha profissional da filha. Formada em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ela conciliou os estudos com a vivência prática nas propriedades rurais. Mais do que acompanhar o trabalho, procurava entender as decisões tomadas no campo e os motivos de cada procedimento.
“Eu aprendi a gostar do campo vivendo o campo ao lado do meu pai. Quando chegou o momento de escolher a profissão, foi uma decisão muito natural para mim”, afirma.

A história da Boa Safra começou oficialmente em 2009, quando Camila e o irmão, Marino Colpo, decidiram transformar o conhecimento acumulado pela família em um negócio especializado na produção de sementes. A percepção de que Formosa reunia condições favoráveis para essa atividade foi o ponto de partida para a construção da empresa, que viria a conquistar espaço no mercado nacional.
“Eu costumo dizer que essa visão começou com o nosso pai, mas a Boa Safra nasceu, de fato, em 2009, a partir de uma iniciativa minha e do meu irmão, Marino Colpo”, diz.
A trajetória, entretanto, foi atravessada por uma perda familiar. Em junho de 2018, o pai morreu de forma repentina. Camila precisou lidar com o luto enquanto assumia responsabilidades maiores na empresa e na gestão das propriedades rurais da família.
“Foi um momento extremamente difícil para mim e para a minha família, porque, de um dia para o outro, eu perdi não apenas o meu pai, mas também o meu mentor, a minha grande referência pessoal e profissional”, relata.
A formação técnica e a busca por aperfeiçoamento tiveram papel importante na consolidação dos negócios. Camila realizou uma especialização em controle de qualidade de sementes na região de Toulouse, na França, em um centro de pesquisa e inovação da Syngenta, empresa parceira da Boa Safra. A experiência ampliou sua visão sobre tecnologia e processos de produção e contribuiu para uma decisão importante: implantar um laboratório próprio de análise de sementes na companhia.
“Foi uma oportunidade que ampliou muito a minha visão sobre o setor de sementes e reforçou para mim que qualidade, tecnologia e inovação precisavam estar no centro da empresa que queríamos construir”, afirma.
Em 2021, a Boa Safra abriu capital na Bolsa de Valores brasileira. A operação marcou uma nova etapa na história da empresa e exigiu o fortalecimento das estruturas de governança corporativa. Foi nesse contexto que Camila assumiu a presidência do Conselho de Administração, enquanto Marino permaneceu à frente da gestão executiva como diretor-presidente.
Quando realizou a oferta pública inicial de ações (IPO), a companhia foi avaliada em aproximadamente R$ 1,1 bilhão. O movimento consolidou a passagem de um negócio construído a partir da experiência familiar para uma empresa de capital aberto, com estrutura de governança compatível com essa nova dimensão.
Atualmente, Camila concentra sua atuação na estratégia de longo prazo, na governança e nas oportunidades de crescimento da Boa Safra. A empresa mantém as sementes como principal negócio, mas busca expandir sua atuação em segmentos complementares, desde que estejam alinhados à experiência acumulada e às necessidades dos produtores rurais.
“Acredito muito que crescer não significa simplesmente diversificar. Significa identificar negócios que tenham sinergia com aquilo que já fazemos bem, que agreguem valor ao produtor e fortaleçam a companhia”, explica.
O reconhecimento da Forbes, segundo Camila, também carrega um significado que ultrapassa sua trajetória individual. Para ela, a presença na lista representa o interior goiano e as mulheres que trabalham no agronegócio e buscam conquistar espaços de liderança.
“Tenho muito orgulho das minhas raízes e de poder mostrar que não é preciso nascer ou construir uma carreira nos grandes centros para chegar a posições de destaque nacional”, afirma.
Mesmo diante das conquistas, a empresária diz que continua estabelecendo novos objetivos. Desde jovem, mantinha um mural no qual reunia sonhos e ambições pessoais e profissionais. A prática permanece como uma referência para os próximos passos.
“Talvez eu não imaginasse exatamente todos os caminhos que a minha carreira tomaria, mas sempre soube que queria construir algo relevante”, conta. “E, mesmo olhando para tudo o que já conquistamos, continuo sonhando. Ainda tenho muitos sonhos nesse mural e muita vontade de realizá-los.”
Da menina que acompanhava o pai pelas lavouras à presidente do conselho de uma companhia de alcance nacional, Camila construiu uma trajetória marcada pela formação técnica, pela continuidade do legado familiar e pela modernização dos negócios. Agora, ao ver seu nome reconhecido pela Forbes, ela leva consigo a cidade onde cresceu e a história de uma família que apostou no potencial do Cerrado antes de ele se tornar uma das principais fronteiras agrícolas do país.
Fonte: Jornal Opção.
Fotos: Jornal Opção/Reprodução

