Brasil

Em nome do voto, nem a fé está sendo poupada

Não faz sentido que políticos utilizem símbolos, imagens ou elementos que fazem parte da cultura e da fé de determinada religião para obter êxito nas urnas. Precisamos respeitar a coletividade, que também impacta diretamente a individualidade de cada pessoa

Religião e política nunca estiveram completamente separadas. Quem conhece minimamente a história sabe disso. Durante séculos, instituições religiosas exerceram influência direta sobre governos, leis, costumes e até sobre quem poderia ter acesso ao conhecimento. Os tempos mudaram, as democracias avançaram e o Estado brasileiro tornou-se laico, mas a religião continuou ocupando espaço importante na vida pública. E não há necessariamente um problema nisso.

Católicos, evangélicos e integrantes de qualquer outra religião são cidadãos. Possuem valores, interesses, demandas e, evidentemente, o direito de participar da política. O problema começa quando a fé deixa de ser uma convicção e passa a ser utilizada como ferramenta eleitoral. Pior ainda: quando símbolos religiosos são instrumentalizados para espalhar informações falsas, despertar medo e transformar a crença de milhões de pessoas em munição contra adversários.

Foi exatamente esse limite que o debate político ultrapassou nesta semana. Circulou a informação de que Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, estaria estudando retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A notícia rapidamente ganhou repercussão e provocou reações no meio político e religioso.

Só havia um problema fundamental: a informação não correspondia aos fatos apresentados. A proposta que serviu de combustível para a polêmica não era de Flávio Bolsonaro. Tratava-se de uma iniciativa apresentada anos atrás por outro parlamentar. Ainda assim, em questão de horas, a história ganhou as redes sociais como se fosse atual e estivesse diretamente ligada ao candidato.

E aqui está uma das maiores contradições da política contemporânea: aqueles que tanto condenam as fake news também podem se tornar seus propagadores quando a mentira parece conveniente ao próprio campo político.

Não importa se a desinformação vem da direita, da esquerda ou do centro. Mentira não ganha legitimidade porque prejudica o candidato de quem não gostamos.

Esse deveria ser um princípio básico. Quando figuras públicas com milhares ou milhões de seguidores compartilham uma informação, elas sabem, ou deveriam saber, o alcance que possuem. Não estamos falando de uma conversa de bar ou de uma mensagem perdida em um grupo de WhatsApp. Uma publicação feita por alguém com grande projeção política pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos e estabelecer como verdade algo que talvez nunca tenha existido.

Há ainda outro personagem que precisa olhar para esse episódio com atenção: o jornalismo.

Nossa profissão existe justamente porque informação exige método. Checar documentos, ouvir envolvidos, confrontar versões, contextualizar datas e desconfiar até daquilo que parece confirmar nossas próprias convicções fazem parte do trabalho. Jornalismo não pode ser um grande painel de “boataria” no qual basta alguém ligar uma câmera, falar com segurança e publicar primeiro.

Credibilidade demora anos para ser construída e pode começar a desmoronar em poucos minutos. O erro faz parte de qualquer atividade humana, inclusive do jornalismo. O que não pode ser normalizado é a substituição da apuração pela pressa, da checagem pela conveniência e do fato pela narrativa que melhor atende às nossas preferências.

Mas há algo ainda mais profundo neste episódio: Nossa Senhora Aparecida não deveria ser cabo eleitoral de ninguém.

Assim como uma Bíblia, um crucifixo, um terço, um templo, um pastor ou qualquer outro símbolo e liderança religiosa não deveriam ser utilizados como instrumentos para fabricar medo e conquistar votos. Para milhões de brasileiros, esses elementos representam algo íntimo e profundo: representam fé. Quando a política transforma essa fé em estratégia de campanha, ultrapassa uma fronteira perigosa.

É legítimo questionar candidatos sobre aborto, liberdade religiosa, educação, segurança, economia, corrupção ou qualquer outro assunto que dialogue com valores individuais. Também é legítimo que o eleitor leve suas convicções religiosas para a urna. O que não deveria ser aceitável é manipular essas convicções por meio de informações falsas para induzir alguém a acreditar que sua própria fé está ameaçada.

Querem derrotar um candidato? Existem instrumentos democráticos para isso. Investiguem sua trajetória. Mostrem seus votos, projetos, alianças, contradições e decisões tomadas durante a vida pública. Questionem suas propostas. Confrontem suas promessas com aquilo que já fizeram. Elementos concretos não faltam para analisar qualquer pessoa que tenha escolhido disputar um cargo público. Inventar ou distorcer fatos deveria estar fora desse repertório.

O mais preocupante é perceber que estamos entrando em uma lógica na qual vale praticamente tudo para impedir que o outro lado chegue ao poder. A polarização criou uma espécie de licença moral: se determinada atitude prejudica o adversário, ela passa a ser tolerada por quem provavelmente a condenaria caso fosse praticada pelo campo oposto.

É aí que mora o perigo. Democracias não são corroídas apenas por grandes rupturas. Elas também perdem força quando pequenas transgressões éticas passam a ser justificadas diariamente em nome de uma causa considerada maior.

Hoje relativizamos uma informação falsa porque ela prejudica o adversário. Amanhã toleramos outra porque beneficia nosso candidato. Depois, quando percebemos, verdade e mentira passam a depender apenas de quem publicou e de quem foi atingido.

Nesse ambiente, não existe debate público saudável. Existe torcida. E talvez esse seja um dos maiores problemas da política brasileira atual: deixamos de discutir adversários para fabricar inimigos. Quando o outro deixa de ser alguém que precisa ser vencido democraticamente e passa a ser alguém que precisa ser destruído, qualquer instrumento começa a parecer justificável. Até mesmo a fé.

Por isso, a pergunta que fica não é apenas até onde a política pode entrar na religião. É outra, muito mais incômoda: até onde estamos dispostos a ir para colocar no poder o candidato que escolhemos?

Se a resposta incluir mentira, manipulação e exploração da fé alheia, talvez o problema já não esteja somente nos políticos que tanto criticamos. Talvez esteja também naquilo que, como sociedade, passamos a aceitar para vê-los vencer.

Fonte: Jornal Opção.

Foto: Reprodução.

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