Tarifas, soberania e o risco de transformar o comércio em arma política
Não há ingenuidade nas guerras tarifárias
Donald Trump sempre tratou a política comercial como uma extensão da política de poder. As novas tarifas que podem ser impostas aos produtos brasileiros nesta quarta-feira, 15, confirmam essa lógica. O discurso oficial fala em práticas comerciais, pagamentos digitais e outras divergências econômicas. Mas o momento e o contexto tornam impossível ignorar a dimensão política da decisão. As medidas foram informadas ao governo brasileiro poucos meses antes das eleições brasileiras e tendem a aumentar a tensão entre os dois países.
Não há ingenuidade nas guerras tarifárias. Tarifas dessa magnitude não atingem presidentes ou ministros; atingem empresas, produtores, trabalhadores e consumidores. Quem exporta perde mercado. Quem produz vê investimentos diminuírem. Quem trabalha passa a conviver com a insegurança sobre empregos e renda. No fim da cadeia, quem paga a conta é o povo brasileiro.
O caso brasileiro chama atenção porque a decisão dos Estados Unidos ocorre em um ambiente de forte polarização política. Donald Trump mantém uma relação pública de proximidade com Jair Bolsonaro e com seus aliados. Flávio Bolsonaro, apontado como pré-candidato à Presidência, esteve em Washington defendendo o adiamento das tarifas para depois das eleições, numa tentativa de evitar que a medida tivesse impacto político sobre sua candidatura.
Esse episódio revela uma contradição. Se, por um lado, Flávio Bolsonaro buscou convencer autoridades americanas a postergar as tarifas, por outro reforçou a percepção de que a disputa comercial passou a se misturar com a política brasileira. Isso alimenta interpretações de que as decisões de Washington podem influenciar o ambiente eleitoral, ainda que não existam evidências públicas de que tenham sido adotadas especificamente para eleger um candidato. O simples fato de esse debate existir já demonstra o grau de politização da relação bilateral.
A história da América Latina recomenda cautela. Ao longo do século XX, os Estados Unidos intervieram política, econômica e diplomaticamente em diversos países da região, apoiando governos considerados mais alinhados aos seus interesses estratégicos. Esse histórico faz com que qualquer movimento de pressão sobre um país latino-americano seja inevitavelmente analisado também sob a ótica geopolítica.
Isso não significa afirmar que Washington esteja escolhendo o próximo presidente do Brasil. Significa reconhecer que decisões econômicas tomadas pela maior potência do mundo podem alterar o cenário político interno de outra nação. Uma economia pressionada tende a produzir efeitos sobre a avaliação dos governos e, consequentemente, sobre o comportamento do eleitor.
Há ainda outra incoerência difícil de ignorar. Trump construiu sua imagem defendendo o livre mercado apenas quando ele beneficia os Estados Unidos. Quando interesses estratégicos entram em jogo, o discurso liberal desaparece e dá lugar ao protecionismo, às sanções e às tarifas. O comércio deixa de ser uma relação entre parceiros e passa a ser uma ferramenta de pressão.
O próprio governo americano admite que as novas tarifas atingem milhares de produtos brasileiros e representam uma ampliação significativa da política comercial iniciada nos últimos meses. Analistas avaliam que a medida pode afetar bilhões de dólares em exportações brasileiras e agravar as tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.
Independentemente da posição ideológica de cada brasileiro, há um princípio que deveria ser consensual: divergências políticas não justificam a punição econômica de milhões de pessoas. Nenhum trabalhador brasileiro ganha quando exportações diminuem. Nenhum empresário ganha quando mercados são fechados. Nenhum consumidor ganha quando a instabilidade afasta investimentos.
A soberania de um país não é medida apenas pela capacidade de defender suas fronteiras. Ela também se mede pela liberdade de conduzir sua política econômica e seu processo democrático sem pressões externas que utilizem o comércio como instrumento de influência.
Se as tarifas impostas por Trump acabarem produzindo efeitos sobre a eleição brasileira, isso ocorrerá porque decisões econômicas moldam o ambiente político. Mas transformar relações comerciais em mecanismo de pressão eleitoral é um precedente perigoso para qualquer democracia. Hoje o alvo é o Brasil. Amanhã pode ser qualquer outro país cuja escolha política desagrade à Casa Branca.
No fim das contas, guerras tarifárias raramente produzem vencedores absolutos. Produzem mercados menores, relações diplomáticas mais frágeis e populações que pagam uma conta que nunca ajudaram a criar. E esse talvez seja o aspecto mais preocupante de toda essa disputa: em nome de interesses políticos e estratégicos, se sacrifica justamente quem deveria estar fora dela: o cidadão comum.
Fonte: Jornal Opção.
Foto: Reprodução.

