Meio Ambiente

Estudo com IA aponta 13 mil hectares fora de produção no Cerrado

Estudo da Embrapa e UnB usa imagens de satélite para mapear áreas fora de produção e aponta falhas no monitoramento do uso da terra no Brasil

Um estudo recente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Universidade de Brasília (UnB) lança luz sobre um fenômeno ainda pouco mensurado no país, mas com implicações diretas para a economia, o meio ambiente e o planejamento territorial: o abandono de terras agrícolas no Cerrado.

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Área de Cerrado degradada | Foto: Divulgação

Com o uso de inteligência artificial e imagens de satélite, os pesquisadores identificaram 13.147 hectares de áreas abandonadas no município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, o equivalente a 4,7% da área agrícola local entre 2018 e 2022 . O dado, por si só expressivo, adquire maior relevância quando considerado em perspectiva: trata-se de um recorte espacial limitado, que sugere a existência de um processo mais amplo e ainda subdimensionado no bioma.

Um fenômeno invisível nas estatísticas

Ao contrário de outras categorias de uso da terra, como lavouras, pastagens ou florestas, as áreas abandonadas não aparecem de forma explícita nos principais sistemas de monitoramento territorial do Brasil. Isso significa que, até aqui, o país não dispõe de uma mensuração sistemática desse tipo de transição.

O próprio estudo parte dessa lacuna. Ao incluir o abandono como uma classe específica nos mapas de uso do solo, os pesquisadores não apenas identificam áreas até então “invisíveis”, mas também introduzem uma variável relevante para o debate sobre planejamento ambiental e produtivo.

Localização da área de estudo no Brasil | Foto: Arquivo

A ausência de dados consolidados ajuda a explicar por que o tema ainda ocupa posição marginal no debate público, apesar de sua relevância. Estimativas indicam que o Brasil pode ter cerca de 8,4 milhões de hectares de terras agrícolas abandonadas, mas o número permanece impreciso .

Entre a expansão e a retração

O avanço do agronegócio no Cerrado é um dos pilares da economia brasileira nas últimas décadas. A região concentra grande parte da produção de grãos e sustenta cadeias produtivas voltadas tanto ao mercado interno quanto à exportação.

O estudo, no entanto, sugere uma dinâmica mais complexa. Paralelamente à expansão de áreas produtivas, há também um movimento de retração, marcado pelo abandono de terras que deixaram de ser economicamente viáveis.

Em Buritizeiro, esse processo está fortemente associado às plantações de eucalipto, que representam 87% das áreas abandonadas identificadas . A produção, voltada principalmente ao carvão vegetal utilizado na indústria siderúrgica, perdeu competitividade nos últimos anos, pressionada pelo aumento dos custos logísticos e pela volatilidade de preços.

Situação semelhante ocorre nas pastagens. A combinação de períodos prolongados de seca, baixa produtividade e aumento expressivo no custo de insumos — especialmente fertilizantes — tem reduzido a rentabilidade da atividade pecuária em determinadas regiões.

O papel da tecnologia na leitura do território

A identificação dessas áreas foi possível a partir do uso de redes neurais profundas, capazes de processar grandes volumes de dados provenientes de imagens de satélite. O modelo utilizado atingiu 94,7% de precisão na classificação do uso da terra , desempenho considerado elevado para esse tipo de análise.

Mais do que um avanço metodológico, o uso da inteligência artificial permite capturar transições mais sutis no território, como a passagem de áreas cultivadas para vegetação secundária — um indicador típico de abandono.

Ainda assim, os próprios autores reconhecem limitações. A análise se baseia em apenas dois recortes temporais (2018 e 2022), o que impede distinguir com total segurança o abandono permanente de práticas temporárias, como o pousio. Em outras palavras, parte das áreas identificadas pode ter sido apenas momentaneamente retirada da produção.

Abandono, regeneração e política pública

Se, por um lado, o abandono reflete dificuldades econômicas, por outro, ele abre espaço para processos ecológicos relevantes. Áreas sem uso tendem a passar por regeneração natural, com aumento da cobertura vegetal, recuperação do solo e potencial de captura de carbono.

Esse aspecto coloca o fenômeno em uma posição ambígua. Ao mesmo tempo em que indica fragilidades em determinadas cadeias produtivas, ele também pode ser incorporado a estratégias de restauração ambiental e mitigação das mudanças climáticas.

Os autores do estudo apontam que o mapeamento dessas áreas pode subsidiar políticas públicas voltadas à recuperação de terras degradadas, à formação de corredores ecológicos e ao planejamento do uso do solo em escala regional.

Um debate ainda em aberto

O principal mérito da pesquisa talvez não esteja apenas nos números apresentados, mas na abertura de um campo de investigação ainda pouco explorado no Brasil.

O abandono de terras agrícolas levanta questões que extrapolam o recorte ambiental:

  • quais são os limites econômicos da expansão agropecuária?
  • que regiões tendem a perder competitividade?
  • como integrar essas áreas a novas dinâmicas produtivas ou ambientais?

Sem respostas consolidadas, o tema tende a ganhar relevância nos próximos anos, especialmente em um contexto de pressão por sustentabilidade e eficiência no uso da terra.

Entre o que se produz e o que se deixa para trás

O Cerrado segue como um dos principais motores do agronegócio brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, começa a revelar sinais de desgaste em partes do seu território.

O que o estudo evidencia é que o uso da terra não é estático — ele responde a variáveis econômicas, climáticas e tecnológicas. E, nesse processo, nem todas as áreas permanecem produtivas.

Mapear o que está sendo abandonado é, em última instância, uma forma de compreender melhor o próprio modelo de ocupação do campo brasileiro — seus limites, suas contradições e suas possibilidades de transformação.

Fonte: Jornal Opção.

Foto: Reprodução EMBRAPA / Jornal Opção.

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