Saúde

Goiás registra mais de 5,4 mil internações por dengue; estudo aponta maior risco de morte em UTIs do SUS

Dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram que abril concentrou o maior número de internações por dengue clássica e hemorrágica em 2026

Até agosto deste ano, Goiás registrou 4.919 internações por dengue clássica e 508 por febre hemorrágica da dengue. Somados, os dois tipos da doença contabilizam 5.427 hospitalizações nos primeiros oito meses de 2026, número que corresponde a aproximadamente 83,7% das 6.487 internações registradas durante todo o ano de 2025. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) e foram encaminhados ao Jornal Opção nesta segunda-feira, 26.

Em 2025, maio foi o mês com o maior número de internações tanto por dengue clássica, com 978 registros, quanto por febre hemorrágica, com 94. Em seguida, março apresentou os segundos maiores números de hospitalizações, com 953 e 85 internações, respectivamente.

Já em 2026, abril concentrou o maior número de internações por dengue clássica, com 1.024 registros, seguido de março, com 1.011. Os dois meses, juntos, responderam por 2.035 hospitalizações, o equivalente a aproximadamente 41,4% do total registrado até agosto.

O cenário foi semelhante em relação à febre hemorrágica da dengue. Abril também liderou o número de internações, com 95 casos, seguido de março, com 88 registros.

Os dados disponibilizados pela SES-GO não diferenciam as internações realizadas em enfermarias daquelas ocorridas em unidades de terapia intensiva (UTIs).

Um estudo recente, que analisou pacientes adultos internados com dengue grave em UTIs brasileiras, identificou diferenças significativas no risco de morte entre pacientes atendidos em hospitais vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e aqueles internados em unidades privadas.

Segundo o médico intensivista e pesquisador do Einstein Hospital Israelita, Luciano Azevedo, os resultados mostram que pacientes internados em UTIs vinculadas ao SUS apresentam maior gravidade clínica e maior risco de morte. Entretanto, o estudo não permite determinar com precisão as causas dessa diferença.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a dificuldade de acesso aos leitos de terapia intensiva na rede pública faça com que pacientes permaneçam por mais tempo em unidades de pronto atendimento e pronto-socorros, chegando às UTIs em condições mais graves.

“Os nossos dados mostraram que pacientes com dengue grave internados em UTIs afiliadas ao Sistema Único de Saúde têm um risco de morte muito maior do que aqueles internados em UTIs de hospitais privados. O estudo não consegue identificar muito bem, por causa do desenho dele, qual é a causa dessa grande diferença de mortalidade”, explica.

Idosos e pessoas com doenças crônicas apresentam maior risco

A pesquisa também identificou que idosos, pacientes com doenças crônicas e pessoas que chegam ao hospital com sinais de choque circulatório estão entre os grupos associados a um maior risco de morte por dengue grave.

Luciano Azevedo explica que condições como diabetes descompensado, doenças cardíacas e problemas pulmonares podem comprometer a capacidade do organismo de enfrentar as complicações provocadas pela doença.

“Quando a dengue é grave, ela acaba gerando uma demanda muito grande do organismo. Às vezes, se o paciente já tem uma doença crônica, a reserva do organismo dele é pequena, então ele não consegue combater adequadamente a infecção da dengue. Por isso, ele tem um risco de morte maior”, esclarece.

O especialista defende que essas características sejam consideradas durante a avaliação clínica e na definição das prioridades de internação em terapia intensiva, especialmente durante epidemias, quando a demanda por leitos aumenta.

Sinais de alerta para agravamento da dengue

O aparecimento de hematomas e manchas roxas pelo corpo, desmaios provocados pela queda da pressão arterial, diminuição importante da produção de urina, sonolência excessiva, dores abdominais intensas e distensão do abdômen estão entre os sinais que podem indicar o agravamento da dengue.

Segundo Luciano Azevedo, a identificação dessas manifestações é fundamental para que o paciente procure atendimento médico e receba uma avaliação adequada.

“Todos esses sinais são sinais de gravidade da dengue. Isso deve orientar a procura do serviço de saúde, porque o médico vai conseguir avaliar se o paciente realmente está com um quadro de dengue grave e se ele se encaixa nesses perfis que o nosso estudo identificou”, afirma.

O pesquisador também destaca que o atendimento precoce é essencial para evitar o agravamento do quadro clínico e permitir que pacientes em condições críticas recebam os cuidados necessários.

Durante epidemias, a superlotação dos serviços de urgência pode dificultar a identificação dos pacientes com maior risco. Nesse cenário, pessoas que necessitam de cuidados intensivos podem permanecer em unidades que não dispõem dos recursos adequados.

O médico ressalta, porém, que a relação entre os atrasos no atendimento e a diferença de mortalidade observada entre as redes pública e privada ainda é uma hipótese, e não uma conclusão comprovada pelo estudo.

“Se eu atraso a identificação da gravidade, eu não consigo solicitar o leito de terapia intensiva e não consigo cuidar adequadamente do paciente. Imagina um pronto-socorro lotado, numa circunstância de epidemia de dengue, e você não conseguir identificar adequadamente esses pacientes que têm um perfil de gravidade maior”, alerta.

Critérios de internação precisam considerar fatores de risco

Para Luciano Azevedo, uma das principais medidas para melhorar a assistência aos pacientes com dengue grave é considerar fatores como idade avançada, presença de doenças crônicas e sinais de comprometimento circulatório na avaliação da necessidade de internação.

A identificação precoce desses fatores pode contribuir para que os profissionais de saúde reconheçam os pacientes com maior probabilidade de desenvolver complicações e avaliem a necessidade de cuidados intensivos.

O especialista também orienta que familiares de pessoas com doenças crônicas procurem atendimento médico rapidamente diante da suspeita de dengue, mesmo antes do aparecimento de manifestações mais graves.

“Se eu tenho um familiar que já tem um problema de coração, de pulmão ou uma doença crônica que não está muito compensada, como um diabetes, e esse paciente apresenta um quadro de dengue, eu não devo esperar para levá-lo ao hospital. Devo levá-lo rapidamente, porque lá ele será avaliado, serão coletados exames laboratoriais e talvez precise ficar internado mais precocemente”, conclui.

Fonte: Jornal Opção.

Foto: Reprodução.

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