Mulheres lideram empresas e propriedades rurais, mas seguem longe do centro da disputa pelo Governo de Goiás
As mulheres nunca ocuparam tantos espaços na economia goiana. Elas comandam empresas, administram propriedades rurais, lideram equipes, ocupam cargos de destaque em entidades empresariais, universidades e instituições públicas. Ainda assim, quando o assunto é a sucessão do governador Ronaldo Caiado (PSD) em 2026, elas continuam distantes do centro da disputa política estadual.
A contradição chama atenção porque os números apontam para uma presença feminina cada vez mais expressiva em diferentes setores da sociedade. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres representam cerca de 53% do eleitorado brasileiro e também são maioria entre os eleitores goianos. No mundo dos negócios, levantamento citado pela Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg) aponta que aproximadamente 435 mil empresas goianas possuem liderança feminina, o equivalente a cerca de 44% dos empreendimentos ativos no Estado.
No agronegócio, a presença feminina também cresce de forma consistente. Mulheres assumem propriedades rurais, participam dos processos sucessórios, lideram cooperativas, ocupam cargos em sindicatos e ampliam sua atuação em cadeias produtivas que historicamente foram dominadas pelos homens.
Apesar desse avanço econômico e social, a realidade da política segue diferente. Até o momento, os principais nomes colocados para a disputa do Palácio das Esmeraldas em 2026 são homens. Mais do que a ausência de candidaturas femininas competitivas, lideranças ouvidas pelo Jornal Opção afirmam que as pautas das mulheres continuam recebendo tratamento secundário na formulação das políticas públicas.
Representantes do empreendedorismo, do agronegócio, do setor jurídico e da academia apontam que o problema não se resume à ocupação de cargos eletivos. Para elas, existe uma estrutura histórica que ainda dificulta o acesso feminino aos espaços onde as decisões são efetivamente tomadas.
A política continua refletindo desigualdades históricas
Para as pesquisadoras Ana Paula de Castro Neves, Fernanda Sales França de Farias, Julyana Macedo Rego e Luciana Rodrigues de Oliveira, integrantes do Observatório de Mulheres em Goiânia (Berê), a sub-representação feminina na política é consequência de uma desigualdade estrutural que atravessa diferentes áreas da sociedade.

“A política, assim como o mercado de trabalho, reflete as estruturas da sociedade. Quando observamos quem ocupa os espaços de poder, percebemos que as mulheres continuam sub-representadas, apesar de serem maioria da população e do eleitorado”, afirmam.
As pesquisadoras destacam que os obstáculos enfrentados pelas mulheres vão muito além do momento eleitoral.
“Elas enfrentam barreiras relacionadas ao financiamento de campanhas, ao acesso aos recursos partidários, à violência política de gênero e à própria divisão desigual das responsabilidades familiares”, observam.
Segundo elas, a chamada divisão sexual do trabalho continua produzindo efeitos diretos sobre a participação feminina na política.
“A dupla e, muitas vezes, a tripla jornada impõem limitações objetivas. Muitas mulheres precisam conciliar trabalho remunerado, cuidados domésticos e responsabilidades familiares. Isso reduz o tempo disponível para construir trajetórias políticas e disputar espaços de liderança.”
Na avaliação do grupo, o problema não pode ser explicado apenas pela falta de interesse das mulheres pela política.
“Não se trata de ausência de capacidade ou de vontade. Trata-se de um sistema que historicamente foi estruturado para homens e que ainda apresenta dificuldades para incorporar mulheres em condições de igualdade.”
As pesquisadoras defendem que o debate eleitoral de 2026 deveria incluir compromissos concretos relacionados à ampliação da participação feminina nos espaços de decisão.
“Democracias mais representativas tendem a produzir políticas públicas mais sensíveis às necessidades da população. Quando as mulheres estão ausentes dos espaços de poder, parte significativa dessas demandas deixa de ser considerada.”
Mulheres avançaram na economia mais rapidamente do que na política
A presidente da Acieg Mulher, Tatiana Accioly, avalia que Goiás tem hoje um cenário pré-eleitoral com nomes de peso e trajetórias
consolidadas. “A ACIEG Mulher acompanha esse movimento com interesse, mas com critério. Não avaliamos candidaturas pelo nome ou pela sigla, avaliamos pelo projeto. Goiás cresceu muito nos últimos anos, e o próximo governador precisará estar à altura desse protagonismo econômico. Quando os planos de governo estiverem formalizados, teremos elementos concretos para uma avaliação mais precisa”.

Segundo Tatiana, a ACIEG Mulher estará disponível para contribuir com esse processo. As mulheres lideram cerca de 435 mil pequenos negócios em Goiás, o que representa 44% de todas as empresas ativas no estado.
“Não estamos falando de uma minoria. Estamos falando de quase metade da base produtiva goiana”, destaca Accioly.
Ela afirma que o ambiente político ainda apresenta obstáculos que dificultam a ascensão feminina. “A legislação criou mecanismos importantes, como as cotas, mas isso não resolve o problema sozinho. Em muitos casos, as mulheres continuam recebendo menos apoio partidário, menos recursos financeiros e menos espaço para construir candidaturas competitivas.”
Para a empresária, o primeiro compromissos o próximo governador deveria assumir em relação às mulheres deve ser estrutural: ampliar a participação de mulheres nos espaços de liderança e tomada de decisão do governo, com metas claras e prazo
definido, não como gesto simbólico, mas como critério efetivo de gestão. “Mais do que criar iniciativas, é preciso fazer com que os programas e oportunidades já disponíveis, especialmente nas áreas de crédito, capacitação e apoio aos negócios, cheguem a quem mais precisa, em todas as regiões do estado”.
Goiás cresceu. O agronegócio é referência nacional, a indústria avança e os serviços se sofisticam. As mulheres estão em todos esses setores, produzindo, gerindo e empreendendo. Mas ainda acessam menos crédito, chegam menos a posições de decisão e encontram mais barreiras para crescer dentro dos mesmos mercados
Bastidores do poder ainda são predominantemente masculinos
A advogada Thawane Larissa, segunda-secretária da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ), avalia que a desigualdade não está apenas na ocupação formal dos cargos públicos. Segundo ela, existe uma dimensão menos visível da política que continua concentrada nas mãos dos homens.

O espaço de poder não é apenas a cadeira ocupada por alguém. O poder também está nos bastidores, nas articulações, nas conversas informais, nas reuniões estratégicas e nos ambientes onde as decisões começam a ser construídas.
Para Thawane, muitas mulheres que chegam à política ainda enfrentam dificuldades para exercer autonomia plena.
Grande parte das mulheres que consegue alcançar determinados espaços continua dependendo de estruturas partidárias ou de lideranças masculinas para consolidar sua trajetória. Isso limita sua independência e sua capacidade de formular agendas próprias.
Ela considera fundamental ampliar a presença feminina nos espaços de formação política. “Precisamos construir lideranças femininas desde a base. Isso passa por educação política, fortalecimento institucional e incentivo à participação das mulheres em conselhos, associações, entidades de classe e organizações da sociedade civil.”
A advogada também alerta para a persistência da violência política de gênero. “Muitas mulheres ainda são desencorajadas a participar da política porque enfrentam ataques pessoais, desqualificação de suas capacidades e diferentes formas de violência simbólica e institucional.”
Campo rompe barreiras, mas ainda busca reconhecimento
No agronegócio, o avanço feminino também tem sido acompanhado por desafios relacionados ao reconhecimento e à ocupação dos espaços de liderança.
Coordenadora do Comitê Elas pela Credi e integrante da Comissão Feminina do Sindicato Rural de Rio Verde, Fabíola Magalhães afirma que as mulheres sempre participaram da atividade agropecuária, embora por muito tempo tenham permanecido invisíveis.
As mulheres sempre estiveram presentes no campo. O que mudou foi que elas começaram a aparecer mais. Durante décadas, o trabalho feminino ficava nos bastidores, enquanto a visibilidade era dada aos homens.

Segundo ela, a transformação vem ocorrendo de forma acelerada. “Hoje vemos mulheres administrando fazendas, conduzindo processos sucessórios, liderando equipes, operando tecnologias e ocupando posições estratégicas dentro das propriedades rurais.”
Fabíola acredita que a educação é a principal ferramenta para consolidar essa mudança. “Não basta abrir portas. É preciso garantir que as mulheres tenham acesso à informação, capacitação e formação para ocupar esses espaços com segurança.”
Ela também defende uma mudança de perspectiva nas políticas públicas. “Muitas vezes o debate fica concentrado em ações assistenciais. Claro que elas têm importância, mas precisamos avançar para pautas relacionadas à autonomia econômica, ao acesso ao crédito, à inovação e ao empreendedorismo.”
Na avaliação da produtora rural, investir em mulheres gera efeitos que ultrapassam o ambiente profissional.
Quando uma mulher cresce economicamente, os impactos chegam à família, à comunidade e à economia local. O desenvolvimento feminino tem capacidade de transformar realidades inteiras.
Sucessão familiar e liderança feminina ganham espaço
A presidente da Comissão das Mulheres da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Ângela Maria Sebastiani van Lieshout, observa que uma das principais mudanças recentes no campo envolve a participação feminina nos processos de sucessão familiar.
“Durante muito tempo, as decisões relacionadas à gestão das propriedades eram concentradas nos homens. Hoje vemos cada vez mais mulheres assumindo responsabilidades administrativas e estratégicas.”
Segundo ela, o fortalecimento da liderança feminina no agro depende da qualificação. “A principal demanda é a capacitação. Precisamos preparar mulheres para atuar na gestão, na sucessão e nos processos de tomada de decisão dentro das propriedades e também das entidades representativas.”
Ângela afirma que a presença feminina traz novas perspectivas para a administração rural.
As mulheres contribuem com diferentes visões de gestão, inovação e organização. Quanto maior a diversidade nos espaços de decisão, melhores tendem a ser os resultados.

Associação das Mães Atípicas de Goiás (AMAG)
Em um cenário em que as mulheres representam a maioria da população goiana, mas seguem sub-representadas nos espaços de decisão política, a presidente da Associação das Mães Atípicas de Goiás (AMAG), Lorena Clavery, avalia que as demandas femininas ainda recebem pouca atenção nas discussões públicas e eleitorais.
A AMAG é uma entidade voltada ao acolhimento e fortalecimento de mães de crianças com deficiência e transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente autismo. Diferentemente de outras organizações focadas diretamente nos pacientes, a associação concentra sua atuação na saúde mental, na autonomia e na qualidade de vida das mães cuidadoras.
Segundo Lorena, a experiência à frente da entidade revelou um problema recorrente: mulheres que deixam o mercado de trabalho, abandonam projetos pessoais e enfrentam sobrecarga emocional para assumir integralmente os cuidados dos filhos.
Quando a mãe não está bem, a criança também não consegue se desenvolver da melhor forma. Por isso, decidimos focar no cuidado dessas mulheres. Hoje, uma das maiores dificuldades é justamente fazer com que elas consigam olhar para si mesmas novamente, afirma.
Para a presidente da AMAG, a baixa participação feminina nos cargos eletivos ajuda a explicar a ausência de políticas públicas mais específicas para as mulheres.
Somos maioria da população, mas ainda não temos a mesma representação nos espaços de poder. Enquanto não tivermos mais mulheres ocupando esses cargos, muitas das nossas demandas continuarão sem prioridade, diz.
Lorena avalia que o debate político costuma tratar as mulheres de forma homogênea, concentrando-se principalmente em ações de combate à violência doméstica e programas de transferência de renda, sem considerar diferentes realidades femininas.
As políticas públicas acabam ficando muito genéricas. É claro que combater a violência é fundamental, mas existem várias outras necessidades que não entram no debate. Falta olhar para a mulher de forma mais ampla.
Na avaliação da dirigente, a própria sociedade ainda demonstra resistência em apoiar candidaturas femininas. “Vejo que as mulheres conquistaram espaço, principalmente após as cotas de gênero, mas o crescimento ainda acontece de forma lenta. Muitas vezes nem nós, mulheres, damos oportunidade para que outras mulheres ocupem esses espaços.”
Mães atípicas enfrentam isolamento e dependência financeira
Entre as principais pautas que Lorena considera urgentes para o próximo governo estadual está a criação de políticas voltadas às mães atípicas, grupo que frequentemente enfrenta dificuldades para manter emprego e renda.
Segundo ela, a falta de estrutura adequada para atendimento das crianças acaba limitando a autonomia das cuidadoras. “Muitas mães não conseguem trabalhar porque precisam acompanhar os filhos nas terapias, nas consultas e até na escola. Sem uma rede de apoio adequada, elas ficam dependentes financeiramente e acabam abrindo mão da própria vida.”
A presidente da AMAG defende a ampliação da rede de atendimento especializado para pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo mais centros especializados, atendimento psicológico para familiares e espaços de acolhimento que permitam às mães conciliar trabalho e cuidado.
“Precisamos de uma estrutura que permita que essas mulheres estudem, trabalhem e tenham independência. Não basta pensar apenas na criança; é preciso pensar em toda a família.”
Outro ponto destacado é a saúde mental das cuidadoras, considerada pela associação uma das áreas mais negligenciadas pelas políticas públicas.
“Existe uma sobrecarga emocional enorme. Muitas mulheres vivem exclusivamente para cuidar dos filhos e acabam esquecendo quem são, o que gostam de fazer e quais eram seus projetos de vida.”
A associação desenvolve atualmente um projeto de atendimento psicológico gratuito para mães atípicas e pretende expandir a iniciativa para outras regiões do Estado.

Violência e desigualdade continuam entre os maiores desafios
As pesquisadoras do Observatório Berê alertam que a representatividade política é apenas uma das dimensões das desigualdades enfrentadas pelas mulheres.
O grupo identifica desafios persistentes nas áreas de saúde, educação, segurança pública e mercado de trabalho. “Os problemas aparecem de formas diferentes ao longo da vida das mulheres, mas todos estão relacionados à desigualdade de oportunidades”, afirmam.
Na área da saúde, elas citam dificuldades de acesso a exames, consultas especializadas e atendimento adequado. Na educação, apontam a permanência de estereótipos de gênero que influenciam escolhas profissionais e oportunidades de desenvolvimento.
Já na segurança pública, a violência contra a mulher continua sendo uma das principais preocupações. “A dependência financeira permanece como um fator decisivo para que muitas mulheres não consigam romper ciclos de violência.”
As pesquisadoras destacam que a situação se torna ainda mais complexa quando gênero e raça se cruzam. “As mulheres negras enfrentam desigualdades acumuladas que exigem políticas públicas específicas e interseccionais.”
Além das demandas relacionadas às mães atípicas, Lorena aponta que a segurança das mulheres deve ocupar posição central nas discussões da eleição de 2026. Para ela, o aumento dos casos de feminicídio demonstra que as políticas atuais ainda não conseguiram enfrentar o problema de forma efetiva.
Todos os dias vemos novos casos de violência contra mulheres. Isso precisa ser tratado como prioridade absoluta. Não podemos naturalizar esses números.
Lorena ainda defende o fortalecimento dos mecanismos de proteção e acolhimento às vítimas e avalia que o enfrentamento da violência exige ações mais abrangentes do que as atualmente adotadas. “Precisamos garantir que essas mulheres tenham proteção real e consigam romper o ciclo da violência antes que a situação termine em tragédia.”
O que as mulheres esperam do próximo governador
Apesar das diferenças de atuação e trajetória, as entrevistadas convergem em relação às prioridades que gostariam de ver incorporadas ao debate eleitoral de 2026.
Entre elas estão o fortalecimento da rede de proteção às vítimas de violência, a ampliação do acesso à saúde, investimentos em educação, programas de capacitação profissional, estímulo ao empreendedorismo feminino, acesso ao crédito e ampliação da participação das mulheres em cargos de liderança.
O Observatório Berê defende a criação de mecanismos integrados de atendimento às vítimas de violência, reunindo suporte psicológico, jurídico, social e econômico.
Tatiana Accioly propõe metas concretas para ampliar a participação feminina nos espaços de decisão do governo.
Thawane Larissa destaca a necessidade de fortalecer lideranças femininas independentes dentro da política.
Fabíola Magalhães e Ângela Sebastiani defendem investimentos em qualificação, tecnologia, crédito e sucessão no campo.
Embora partam de experiências distintas, todas compartilham uma percepção semelhante: as políticas voltadas às mulheres não podem continuar confinadas a uma pauta setorial.
A principal contradição apontada pelas entrevistadas é que as mulheres já ocupam posições centrais na economia goiana, lideram empresas, administram propriedades rurais, produzem conhecimento, movimentam negócios e representam a maioria do eleitorado. Ainda assim, continuam longe dos espaços onde as decisões mais importantes são tomadas.
À medida que a corrida eleitoral de 2026 começa a ganhar forma, a discussão colocada por essas lideranças vai além da escolha do próximo governador. Ela envolve uma pergunta mais ampla sobre o futuro do Estado: se Goiás está preparado para reconhecer, nos espaços de poder, o protagonismo que as mulheres já exercem diariamente na economia, no campo, nas universidades e na sociedade.
Fonte: Jornal Opção.
Fotos: Jornal Opção / ACIEG Goiás.

